O primeiro sino tocou às 8h46 desta quinta-feira, o horário em que o voo 11 da American Airlines atingiu a Torre Norte do World Trade Center. Depois vieram os outros cinco: 9h03, o segundo avião; 9h37, o Pentágono; 9h59 e 10h28, os colapsos; e 10h03, a queda do voo 93 em um campo da Pensilvânia. Entre um sino e outro, familiares leram em voz alta os nomes das 2.977 pessoas mortas há exatamente 25 anos. Como acontece desde 2002, não houve discursos.
A cerimônia central foi no Marco Zero, em Manhattan, com a presença do vice-presidente JD Vance e de ex-presidentes americanos. O presidente Donald Trump não compareceu: pelo segundo ano seguido, participou da homenagem no Pentágono, em Arlington, na Virgínia. Outros integrantes do governo foram a Shanksville, onde caiu o quarto avião.
Na véspera, 2.977 drones - um para cada vítima - sobrevoaram a baía de Nova York e reconstituíram no ar o desenho das duas torres. O efeito durou alguns minutos, ao lado do Tribute in Light, os dois feixes de luz que sobem do Marco Zero em todo 11 de setembro desde 2002 e são, hoje, a imagem mais reconhecível da data.
Os números do atentado não mudaram: 2.753 mortos em Nova York, 184 no Pentágono e 40 no voo 93, pessoas de 90 nacionalidades. O que mudou em 25 anos é tudo o que veio depois - e boa parte continua em aberto.
Quarenta por cento sem identificação
Um quarto de século depois, cerca de 1.100 das vítimas de Nova York nunca tiveram seus restos identificados. É aproximadamente 40% do total - famílias que enterraram um caixão vazio ou não enterraram nada.
O Escritório do Médico Legista Chefe da cidade nunca encerrou o caso. Em agosto, identificou a vítima de número 1.651 usando uma técnica que não existia em 2001: a genealogia genética forense investigativa, que cruza perfis de DNA degradados com bancos de árvores genealógicas para chegar a um nome por parentesco, e não por comparação direta.
"É um avanço", disse o médico legista-chefe Jason Graham, ao anunciar a aplicação do novo método. A antropóloga forense Jennifer Odien, que integra a equipe, ponderou que nem todo caso serve para a técnica, mas afirmou que o laboratório trabalha com 47 perfis de DNA promissores. "Há um futuro promissor com a genealogia", disse o detetive Gregory Paduano, do Departamento de Polícia de Nova York.
Os fragmentos recuperados no Marco Zero seguem armazenados em um repositório sob o memorial, à espera de tecnologia que ainda não foi inventada.
Mais mortos depois do que no dia
A conta mais dura dos 25 anos é outra. O Corpo de Bombeiros de Nova York já perdeu 453 integrantes para cânceres e doenças respiratórias associadas à exposição aos destroços do World Trade Center - mais do que os 343 que morreram no dia do atentado.
O departamento marcou o aniversário reconhecendo que a perda nunca parou. A comissária Lillian Bonsignore afirmou que a corporação continua enterrando seus membros por doença nos anos seguintes ao ataque. O chefe do departamento, John Esposito, disse ter acompanhado colegas adoecerem ao longo de duas décadas e classificou as perdas como devastadoras.
O quadro não se limita aos bombeiros. Policiais, agentes de limpeza, trabalhadores da construção e moradores do sul de Manhattan que respiraram a poeira daqueles meses formam hoje a população acompanhada pelo World Trade Center Health Program, o programa federal de saúde criado para tratá-los - e cujo financiamento tem sido objeto de disputas orçamentárias recorrentes no Congresso americano.
O julgamento que não começa
No campo judicial, os 25 anos passaram sem sentença. Khalid Sheikh Mohammed, apontado como o principal planejador dos ataques, foi capturado no Paquistão em 2003 e está preso na base americana de Guantánamo, em Cuba, desde 2006. O caso acumula mais de 13 anos de audiências preliminares sem nunca ter chegado a júri.
Em 2024, promotores militares fecharam um acordo de delação com Mohammed e outros dois réus: eles se declarariam culpados em troca de prisão perpétua, afastando a pena de morte. O acordo foi anulado por um tribunal federal de recursos no ano seguinte. Parte das famílias das vítimas comemorou; outra parte, que via no acordo a única chance de ouvir uma confissão em vida, reagiu com frustração. Um juiz militar marcou o julgamento para 2028. Advogados envolvidos no caso avaliam que ele pode nunca acontecer.
Quatro brasileiros
O Itamaraty reconheceu oficialmente três brasileiros entre as vítimas: Ivan Kyrillos Barbosa, 30 anos, que trabalhava no 105º andar da Torre Norte, na corretora Cantor Fitzgerald; Sandra Fajardo Smith, mineira de 37 anos, coordenadora de contabilidade no 98º andar, exatamente na faixa atingida pelo primeiro avião; e Anne Marie Sallerin, 29, que havia se mudado para Nova York com o marido pouco antes.
Um quarto nome, Nilton Fernão Cunha, de 41 anos, aparece nos registros do atentado sem confirmação oficial do governo brasileiro - a família não forneceu material genético para o exame de identificação.
Dossiê completo: https://bit.ly/3UMBOX4
Pauta apurada em fontes primárias: National September 11 Memorial & Museum (números oficiais das vítimas), Escritório do Médico Legista Chefe de Nova York (identificações), FDNY (mortes por doença), comissão militar de Guantánamo (andamento processual) e registros do Itamaraty via imprensa brasileira (vítimas brasileiras).



