O acidente registrado no sábado, 3 de outubro, no km 264 da Rodovia João Mellão, a SP-255, terminou sem vítimas graves, mas colocou em evidência uma realidade que se repete durante todo o ano. Uma van da Saúde que transportava pacientes da região para sessões de hemodiálise na Santa Casa de Avaré se envolveu em uma colisão com um caminhão-guincho.

Nove pessoas foram atendidas pelas equipes de resgate. Cinco foram encaminhadas ao Pronto-Socorro de Avaré e quatro recusaram remoção. As vítimas apresentavam ferimentos leves. Mais do que um acidente de trânsito, a ocorrência chama atenção para uma característica do atendimento renal especializado: para parte dos pacientes da região, chegar à máquina de hemodiálise depende também de estrada, veículo e transporte público de saúde.

Três viagens por semana para manter o tratamento

A hemodiálise é utilizada quando os rins já não conseguem exercer adequadamente funções essenciais, como filtrar o sangue e retirar do organismo resíduos e excesso de líquidos. Segundo o Ministério da Saúde, as sessões são realizadas, em geral, no mínimo três vezes por semana e duram aproximadamente três a quatro horas. Isso representa entre nove e 12 horas semanais apenas de tratamento. Para quem mora fora de Avaré, ainda há o tempo gasto no trajeto de ida, na espera pelo atendimento e na viagem de retorno. Esse deslocamento se repete semana após semana enquanto houver indicação para a terapia. Por isso, para esses pacientes, o transporte não é uma viagem eventual para uma consulta. É parte da continuidade do tratamento.

Em 2022, 75% dos atendidos diariamente vinham da região

O dado público consolidado localizado sobre a origem dos pacientes é da inauguração do novo Centro de Hemodiálise da Santa Casa, em 2022. Naquele momento, o serviço informou atender aproximadamente 125 pacientes cadastrados, com cerca de 60 atendimentos por dia. Dos 60 pacientes atendidos diariamente, 15 eram moradores de Avaré e 45 vinham de outros municípios da região. Na prática, 75% dos pacientes atendidos por dia naquele levantamento não residiam em Avaré. O dado demonstra que o Centro de Hemodiálise nasceu com uma função regional e que o acesso ao serviço sempre esteve diretamente ligado à capacidade dos municípios de transportar seus moradores.

Estrutura de hemodiálise cresceu em Avaré

Na inauguração do centro, em 2022, foram informadas 28 máquinas, sendo 25 em funcionamento e três de reserva. A capacidade cadastrada atualmente é maior. Na consulta ao Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, o CNES, a Santa Casa de Avaré aparece com 53 aparelhos ambulatoriais de hemodiálise cadastrados. Desses, 44 estão em uso e disponíveis ao SUS. O cadastro registra ainda sete equipamentos de hemodiálise de reserva e dois aparelhos hospitalares em funcionamento. Portanto, o dado atual permite afirmar que houve ampliação da estrutura física disponível para o tratamento. Não há, porém, um número público consolidado recente na base consultada que permita substituir com segurança o balanço de pacientes divulgado em 2022. Por isso, a reportagem mantém os números de atendimento devidamente identificados pelo ano em que foram informados.

Quem faz hemodiálise enfrenta uma condição de saúde que exige acompanhamento contínuo

A doença renal crônica provoca perda progressiva da capacidade dos rins de realizar funções fundamentais para o equilíbrio do organismo. Hipertensão arterial e diabetes estão entre os principais fatores relacionados ao desenvolvimento e à progressão da doença renal crônica. Nos estágios mais avançados, alguns pacientes necessitam de Terapia Renal Substitutiva, que pode incluir hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante, de acordo com indicação médica. A condição clínica de cada pessoa é diferente. Nem todo paciente que faz hemodiálise está debilitado ou necessita de ambulância. Mas o próprio procedimento pode produzir intercorrências. O Ministério da Saúde informa que, embora a maioria das sessões transcorra sem sintomas importantes, podem ocorrer queda da pressão arterial, câimbras e dor de cabeça. A retirada de líquidos durante a sessão é um dos fatores relacionados a essas manifestações. Isso significa que o transporte sanitário precisa considerar não apenas a distância percorrida, mas também as características clínicas de quem está sendo transportado.

A ida e a volta fazem parte da assistência

O acidente na SP-255 representa um risco possível em qualquer deslocamento rodoviário. Para pacientes que precisam viajar várias vezes por semana, entretanto, a exposição à estrada é repetida. Além de colisões, a continuidade do transporte depende de veículo disponível, manutenção, motorista, organização das rotas e cumprimento dos horários compatíveis com as sessões. Esse ponto já foi incorporado à política nacional de saúde. O Ministério da Saúde classifica o transporte sanitário eletivo como ferramenta para garantir acesso a consultas, exames e tratamentos especializados em outros municípios e reconhece, especificamente na hemodiálise, que o tratamento ocorre diversas vezes por semana durante todo o ano. A organização do transporte passa, portanto, a integrar a linha de cuidado.

Governo Federal criou financiamento específico para hemodiálise

Em 2026, o Governo Federal ampliou a política destinada ao transporte de pacientes que precisam se deslocar para tratamento especializado. Para a hemodiálise, foi estabelecido financiamento federal específico para deslocamentos intermunicipais superiores a 50 quilômetros. A tabela vigente prevê pagamento por pessoa considerando a viagem completa, ida e volta:

de 51 a 100 quilômetros: R$ 25;

de 101 a 150 quilômetros: R$ 35;

acima de 151 quilômetros: R$ 45.

Para trajetos de até 50 quilômetros, essa modalidade específica não estabelece valor de financiamento por viagem. O Ministério da Saúde também informou em setembro de 2026 a destinação de 963 veículos para apoiar o transporte sanitário de pessoas que precisam percorrer maiores distâncias para acessar serviços especializados, incluindo pacientes de hemodiálise.

Rotas de hemodiálise devem ser organizadas regionalmente

A regulamentação federal estabelece que o transporte destinado à hemodiálise seja planejado de forma regional. Estado e municípios devem pactuar, na Comissão Intergestores Bipartite, a distribuição dos veículos, os fluxos entre municípios e as rotas utilizadas.

Essa regra é especialmente importante para regiões formadas por municípios pequenos, porque permite que a solução deixe de ser tratada apenas como responsabilidade isolada de cada prefeitura. O modelo possibilita organizar o transporte conforme a demanda regional, a localização do serviço de referência e a distância percorrida pelos pacientes.

O que pode ser feito pelas políticas públicas

Os dados disponíveis apontam três frentes objetivas. A primeira é o transporte. Rotas específicas para hemodiálise, veículos adequados, manutenção preventiva e disponibilidade de frota para substituição reduzem o risco de uma pane ou outro problema impedir a chegada do paciente à sessão. A segunda é a organização regional. Como Avaré concentra estrutura utilizada também por moradores de outros municípios, Estado e prefeituras podem organizar conjuntamente fluxos, horários e financiamento, utilizando inclusive os mecanismos federais criados para esse objetivo.

A terceira frente começa antes da necessidade de diálise. O Ministério da Saúde recomenda acompanhamento de pessoas com diabetes e hipertensão, identificação precoce da perda da função renal e tratamento dos fatores de risco. Diagnosticar a doença em seus primeiros estágios pode retardar sua progressão em parte dos pacientes.

Diálise peritoneal é outra modalidade já habilitada em Avaré

A Santa Casa de Avaré possui habilitação federal tanto para atendimento especializado de doença renal crônica com hemodiálise quanto para diálise peritoneal. A diálise peritoneal pode ser realizada no domicílio em pacientes selecionados, após indicação, preparação e treinamento adequados.

Ela não substitui automaticamente a hemodiálise e não é indicada para todos. Mas sua existência dentro da rede é relevante porque, nos casos clinicamente elegíveis, o tratamento domiciliar pode reduzir a necessidade de deslocamentos frequentes até uma unidade de hemodiálise.

Estrutura de saúde e estrada precisam funcionar juntas

O acidente na SP-255 não permite concluir que o transporte sanitário da região seja inseguro. Ele permite enxergar, porém, uma característica concreta do sistema. Quando três em cada quatro pacientes atendidos diariamente em Avaré, no levantamento de 2022, vinham de outros municípios, o atendimento renal já ultrapassava os limites da cidade. Hoje, a capacidade instalada registrada pelo CNES é maior, com 44 máquinas ambulatoriais de hemodiálise em utilização pelo SUS. Para que essa estrutura efetivamente se transforme em acesso à saúde, não basta existir uma máquina disponível no município de referência.

Para uma parcela dos pacientes, é preciso chegar até ela três vezes por semana. Nesse cenário, atendimento médico, transporte sanitário e organização regional não são questões separadas. São partes do mesmo cuidado.

Fontes: Ministério da Saúde, Biblioteca Virtual em Saúde e Linha de Cuidado da Doença Renal Crônica; CNES/DATASUS, cadastro da Santa Casa de Avaré; Portaria GM/MS nº 1.441/2023; Portaria GM/MS nº 11.164/2026; Programa Caminhos da Saúde, Ministério da Saúde; dados divulgados na inauguração do Centro de Hemodiálise da Santa Casa de Avaré em 2022; informações da concessionária sobre o acidente na SP-255. CnesWeb