Para quem vive em Avaré, falar do Rio Paranapanema é falar também da Represa Jurumirim. É falar das paisagens que identificam o município, mas também de turismo, pesca, esportes náuticos, pousadas, hotéis, marinas, restaurantes, comércio, prestação de serviços e de muitas pessoas cuja fonte de renda está, de alguma maneira, ligada às águas do reservatório.
Nesta quinta-feira, 27 de agosto, Dia do Rio Paranapanema, essa relação ganha um dado atual que merece atenção: a Represa Jurumirim está com 49% de seu volume útil. A informação foi apresentada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) durante reunião da Sala de Acompanhamento da Bacia Hidrográfica do Rio Paranapanema, realizada em 20 de agosto. A previsão apresentada é de que o reservatório chegue ao final deste mês com aproximadamente 50% do volume útil.
O cenário geral da bacia foi classificado como de estabilidade. Isso significa que o índice de 49%, isoladamente, não representa uma situação de emergência. Há, porém, um ponto de atenção. Representantes do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paranapanema destacaram que o armazenamento atual de Jurumirim está abaixo do observado em anos anteriores para este mesmo período. O acompanhamento considera ainda a influência do El Niño sobre as chuvas e as temperaturas nos próximos meses.
Para Avaré, acompanhar esses números significa observar muito mais do que o nível de uma represa. Significa acompanhar um patrimônio ambiental que também movimenta parte da economia local.
Quando a água baixa, o impacto chega à economia
A relação entre o nível de Jurumirim e a atividade econômica de Avaré já apareceu de forma concreta em outros períodos. Em 2019, a queda acentuada do reservatório afetou municípios da região e provocou preocupação com os impactos sobre o turismo, o meio ambiente e a economia. Documentos oficiais da Câmara de Avaré registram que, em outubro daquele ano, Jurumirim chegou a 18,57% do volume útil e, posteriormente, em novembro, alcançou aproximadamente 16%.
Na época, o Legislativo também apontou perdas relacionadas ao turismo e aos investimentos em hotelaria, lazer e esportes náuticos. Outros documentos já relacionavam o baixo nível da represa a prejuízos no comércio hoteleiro, construção civil, agropecuária e turismo.
O histórico ajuda a entender por que a discussão sobre Jurumirim não interessa apenas aos moradores das margens do reservatório. Uma represa movimentada significa hóspedes em hotéis e pousadas, clientes nos restaurantes, embarcações nas marinas, consumo de combustível, manutenção de barcos, venda de equipamentos, serviços de transporte, comércio e circulação de visitantes.
Também significa trabalho para guias e profissionais ligados à pesca esportiva, trabalhadores de marinas, prestadores de serviços náuticos e empreendedores que construíram seus negócios em torno do potencial turístico da região.
A própria legislação municipal relacionada à pesca esportiva reconhece essa cadeia. A Lei nº 2.765/2022, ao tratar da pesca do tucunaré na Represa Jurumirim, estabelece entre seus objetivos fomentar a economia de Avaré, movimentar o comércio local e as atividades de prestação de serviços relacionadas ao turismo de pesca esportiva, além de estimular a geração de postos de trabalho.
Jurumirim não é apenas cartão-postal
A represa costuma aparecer nas fotografias pelo pôr do sol, pelas embarcações e pela extensa lâmina d'água. Mas há uma economia funcionando em torno dessa paisagem. A força do segmento náutico é reconhecida inclusive fora do município. Em 2023, Avaré venceu a categoria Turismo Náutico no Prêmio Top Destinos Turísticos. Na ocasião, a importância de Jurumirim para o desenvolvimento do setor turístico local foi destacada.
Eventos realizados no reservatório ajudam a dimensionar essa capacidade de atrair público. Um torneio de pesca esportiva realizado em Jurumirim reuniu 237 competidores de 43 municípios, distribuídos em 80 embarcações, incluindo participantes de São Paulo, Paraná e Minas Gerais.
Já o Boat Village, evento dedicado ao setor náutico, recebeu cerca de 2 mil pessoas apenas em seu primeiro fim de semana em uma edição realizada às margens da represa, reunindo exposição de embarcações, passeios e oportunidades de negócios. São exemplos que mostram como o turista que chega para pescar, navegar, participar de um evento ou passar alguns dias à beira de Jurumirim movimenta diversos outros setores da cidade.
Um patrimônio que ajudou a transformar Avaré em Estância Turística
A ligação é tão forte que documentos oficiais do município apontam a represa como elemento fundamental da própria vocação turística de Avaré. A região da represa concentra empreendimentos, áreas de lazer, serviços e investimentos que contribuíram ao longo dos anos para o desenvolvimento social, econômico, urbano e turístico do município.
Na alta temporada, o crescimento da população flutuante na região da represa também exige reforço nas ações de segurança, fiscalização de embarcações e atendimento aos banhistas. Tudo isso forma uma cadeia que ultrapassa a margem da água.
O Paranapanema passa pela história de Avaré
A importância do rio, porém, começou muito antes do desenvolvimento turístico. Por meio da Represa Jurumirim, o Rio Paranapanema marca aproximadamente 29 quilômetros das divisas territoriais de Avaré. A própria hidrografia está ligada à formação histórica do município. Entre as décadas de 1860 e 1880, ainda durante o processo de formação do povoado, Avaré chegou a ser conhecida como Rio Novo. Água, portanto, não é somente paisagem na história avareense. Faz parte da ocupação territorial e da própria identidade local.
27 de agosto: uma data que nasceu ligada à preservação
O Dia do Rio Paranapanema foi instituído oficialmente no Estado de São Paulo pela Lei nº 10.488, de 29 de dezembro de 1999, estabelecendo a comemoração anual em 27 de agosto. Avaré também incorporou a data ao calendário municipal. A Lei Municipal nº 3.145, de 7 de janeiro de 2025, instituiu o Dia do Rio Paranapanema no município e prevê ações relacionadas à preservação e à educação ambiental. A proposta aproxima ainda mais a data da realidade de uma cidade cuja relação com o Paranapanema é materializada diariamente por Jurumirim.
49%: atenção sem alarmismo
O índice registrado em agosto de 2026 está muito distante dos níveis críticos observados em períodos como 2019. Ainda assim, o fato de Jurumirim estar com armazenamento inferior ao verificado em anos anteriores para a mesma época reforça a necessidade de acompanhamento permanente.
A gestão de um reservatório desse porte envolve geração de energia, questões ambientais, segurança hídrica e diferentes usos da água. Em Avaré, há ainda um componente essencial: o turismo e toda a economia formada ao redor dele. É por isso que, para o município, discutir o nível de Jurumirim não significa defender apenas uma paisagem.
Muito além de uma fotografia bonita
No Dia do Rio Paranapanema, Jurumirim lembra Avaré de que um patrimônio natural pode exercer muitas funções ao mesmo tempo. É paisagem. É história. É meio ambiente. É lazer. É turismo. E também é fonte de trabalho e renda.
Com 49% do volume útil neste 27 de agosto, o reservatório não vive hoje o cenário extremo registrado em outros momentos. Mas o número serve como lembrete de que acompanhar e preservar Jurumirim é uma responsabilidade que envolve interesses ambientais, sociais e econômicos.
Porque cuidar do Paranapanema, em Avaré, significa também cuidar de uma parte da história do município - e das pessoas que construíram suas vidas ao redor de suas águas.



