No sábado, 3 de outubro, o bairro Mário Emílio Bannwart estava diferente. Havia crianças correndo de um lado para o outro, brinquedos infláveis, cheiro de cachorro-quente, pipoca estourando, algodão-doce, refrigerante e doces espalhando alegria por todos os cantos.

No meio daquela festa, Fátima Gomes observava tudo.

E sorria.

Mas, para ela, aquela não era apenas uma festa de crianças.

Era memória.

Era saudade.

Era Henrique.

O filho mais velho foi quem, anos atrás, começou a reunir crianças para pequenas comemorações no bairro onde morava. Gostava de organizar festas, chamar os pequenos e criar momentos de alegria.

Henrique morreu.

E Fátima perdeu não apenas ele, mas três filhos.

Todos tinham hemofilia, uma condição em que o sangue apresenta dificuldade para coagular, fazendo com que sangramentos possam durar mais tempo e exigir cuidados constantes.

Há histórias que mudam completamente uma pessoa.

A de Fátima poderia ter terminado na dor.

Mas seguiu por outro caminho.

Um sonho que não morreu

Quando fala dos filhos, a emoção ainda aparece.

A voz muda.

As lembranças chegam depressa.

E é impossível separar a festa daquele sábado da ausência de quem um dia imaginou tudo aquilo.

Depois da partida de Henrique, Fátima decidiu manter vivo o que o filho fazia.

Se ele gostava de reunir crianças, ela continuaria reunindo.

Se ele gostava de proporcionar alegria, ela faria o possível para que aquela alegria chegasse a outras casas.

Assim, o luto começou a ganhar outra forma.

Não deixou de ser dor.

Transformou-se também em cuidado.

Nasce o Amor Fraternal

Foi desse caminho que surgiu a Rede de Apoio Amor Fraternal.

Uma vez por semana, Fátima entrega marmitas para famílias que precisam.

Mas quase nunca o pedido termina em uma refeição.

Às vezes falta uma roupa.

Em outra casa, um móvel.

Em outra, aparece uma necessidade urgente.

Fátima escuta.

Quando pode, ajuda.

Quando não pode, procura quem possa.

Telefona, conversa, pede, mobiliza.

E a comunidade responde.

Há anos, moradores, comerciantes, amigos e colaboradores ajudam a manter essa corrente funcionando.

O Amor Fraternal tornou-se exatamente aquilo que o nome anuncia.

Gente cuidando de gente.

Cada criança carrega um pouco de Henrique

Na festa de sábado, talvez muitas crianças nem conhecessem a história que existia por trás daquela mesa cheia.

Não sabiam que, antes de cada doce, havia uma lembrança.

Antes de cada brinquedo, havia uma saudade.

Antes de cada sorriso, havia uma mãe que precisou aprender a seguir depois de perder três filhos.

Fátima sabia.

Por isso se emociona.

Porque, de alguma forma, cada criança brincando diante dela também ajuda a manter vivo um pedaço de Henrique.

O que começou com o desejo de um filho continua pelas mãos da mãe.

E vai continuar.

Durante este mês, outras festas serão realizadas em homenagem às crianças.

Mais pipoca será feita.

Mais doces serão distribuídos.

Mais crianças irão brincar.

E a memória seguirá encontrando novos lugares para existir.

Fátima faz questão de agradecer a todos os colaboradores que ajudaram a tornar a festa possível.

Cada doação, cada alimento, cada brinquedo, cada gesto e cada pessoa que participou daquela tarde passou a fazer parte da mesma história.

Uma história que começou com perdas profundas.

Mas que decidiu não terminar nelas.

“A saudade continua. Mas, quando uma criança sorri, o sonho de Henrique também continua.”

O que isso significa para Avaré

A história de Fátima Gomes mostra como uma iniciativa nascida dentro de um bairro pode se transformar em uma rede permanente de solidariedade.

Toda semana, o Amor Fraternal leva alimento e apoio a famílias. Quando surgem outras necessidades, a comunidade é mobilizada para ajudar.

No Mário Emílio Bannwart, a dor de uma mãe encontrou um destino inesperado.

Virou abraço.

Virou comida na mesa.

Virou brinquedo.

Virou sorriso.

Virou amor fraternal.