O Setembro Amarelo chega ao fim nesta quarta-feira, 30, mas o tema não termina com o calendário da campanha. Em Avaré, uma pesquisa da Universidade de São Paulo chama atenção para uma trajetória histórica que coloca o município entre os pontos de atenção do país quando o assunto é a evolução da taxa de suicídio.
A dissertação de mestrado “Data mining espaço-temporal dos suicídios nas cidades brasileiras”, defendida em 2023 na Escola Politécnica da USP pela pesquisadora Sheila Genesine Dada, analisou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, o SIM, e do Censo entre 1996 e 2019.
O trabalho utilizou análise espaço-temporal, agrupamentos estatísticos e regressão Joinpoint para identificar tendências nos municípios brasileiros.
O destaque da USP
É neste ponto que Avaré aparece de forma relevante. Entre os municípios cuja série histórica não apresentou ponto de inflexão, ou seja, manteve uma tendência contínua durante o período analisado, Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul, apresentou o maior crescimento percentual da taxa de suicídio.
Avaré apareceu em segundo lugar nesse recorte estatístico específico. A própria dissertação descreve Avaré como o segundo município com maior APC entre as séries sem ponto de inflexão. APC é a sigla utilizada para indicar a variação percentual anual da tendência. A informação precisa ser interpretada corretamente. Isso não significa que Avaré seja a segunda cidade do Brasil em número de suicídios. Também não significa que tenha a segunda maior taxa absoluta do país.
O que o estudo encontrou foi uma das maiores tendências históricas de crescimento entre os municípios analisados dentro daquela categoria estatística. Nas conclusões, a pesquisa cita Três Lagoas, Avaré, Campo Grande, Garça, Cascavel e Santana de Parnaíba entre os municípios que apresentaram historicamente as maiores tendências de crescimento do suicídio. A autora considera esses municípios pontos de atenção para gestores públicos e recomenda estudos locais que permitam compreender os fatores específicos de cada território.
O estudo analisou dados até 2019
A série da pesquisa da USP termina em 2019. Isso não significa que os casos tenham deixado de ocorrer depois desse período. Significa apenas que o recorte científico utilizado pela dissertação termina naquele ano.
Outro estudo acadêmico, apresentado em Avaré no Congresso de Iniciação Científica Eduvale e posteriormente publicado nos anais do evento, analisou especificamente o município entre 2016 e 2019.
O levantamento apresentou oito mortes por suicídio em 2016, oito em 2017, dez em 2018 e 11 em 2019. Somadas, foram 37 mortes nos quatro anos analisados.
O mesmo trabalho reuniu dados de notificações de violência autoprovocada. Foram 50 registros em 2016, 88 em 2017, 139 em 2018 e 202 em 2019.
Entre os extremos da série, a passagem de 50 para 202 corresponde a crescimento de 304%. É importante fazer uma distinção fundamental. Notificação de violência autoprovocada não significa morte por suicídio. Os indicadores medem fenômenos diferentes e não podem ser apresentados como se fossem equivalentes.
Homens e mulheres aparecem de maneiras diferentes
O estudo de Avaré também revelou diferenças importantes entre os perfis registrados. Entre as mortes por suicídio analisadas de 2016 a 2019, os homens foram maioria. Nas notificações de violência autoprovocada, as mulheres foram maioria em todos os anos estudados.
A diferença mostra por que mortes, tentativas e notificações precisam ser analisadas separadamente. São indicadores relacionados ao sofrimento psíquico e ao comportamento suicida, mas representam situações epidemiológicas distintas.
O que aconteceu depois de 2019
Os registros posteriores disponíveis publicamente não formam uma única série metodologicamente idêntica à utilizada pela USP. O SIM - Sistema de Informações sobre Mortalidade, reúne dados de mortalidade a partir das declarações de óbito. O Sinan - Sistema de Informação de Agravos de Notificação. acompanha notificações de violência autoprovocada. Já a Polícia Civil registra ocorrências policiais.
Por isso, a reportagem optou por não preencher os anos de 2020 a 2023 com estimativas ou combinar bancos diferentes como se fossem uma única sequência estatística. Há, entretanto, levantamentos mais recentes que ajudam a dimensionar a continuidade do problema.
Dados atribuídos à Delegacia Seccional de Polícia de Avaré e divulgados pela imprensa local apontaram sete suicídios consumados em 2024. Em 2025, levantamento divulgado em 5 de dezembro indicava 15 suicídios consumados no município.
A comparação entre essas duas contagens representa aumento de aproximadamente 114%. É preciso ressaltar novamente que esses dados são provenientes de registros policiais divulgados pela imprensa e não equivalem à consolidação epidemiológica definitiva do Sistema de Informações sobre Mortalidade.
2026 também registra novos casos
Em 8 de abril de 2026, levantamento publicado pelo Jornal In Foco apontava quatro casos de suicídio registrados em Avaré até 7 de abril. Em 22 de maio, uma atualização elevou a contagem jornalística para cinco casos no ano.
Outro episódio foi registrado pela imprensa em setembro. Essas informações mostram que novos casos continuaram ocorrendo, mas ainda não permitem apresentar um total anual definitivo para 2026.
O ano ainda está em curso e não há, nesta reportagem, uma série epidemiológica anual consolidada que possa ser comparada diretamente com o estudo da USP.
Subnotificação pode interferir nos números
Outro ponto importante da dissertação da USP é a possibilidade de subnotificação. A pesquisa alerta que fatores sociais, culturais, religiosos, políticos e econômicos podem interferir na classificação e no registro de casos.
Isso significa que uma queda observada em determinada série não representa necessariamente, por si só, redução real do problema. Da mesma forma, uma alta pode refletir uma combinação de crescimento real, maior identificação dos casos, melhoria dos registros ou mudanças na classificação. A própria autora recomenda que pesquisadores e gestores avaliem a possibilidade de subnotificação antes de interpretar tendências municipais.
A Lua não explica os casos de Avaré
Uma explicação que já circulou no município relaciona suicídios à posição ou às fases da Lua. Essa associação não encontra respaldo científico consistente.
A pesquisa da USP não atribui a tendência histórica encontrada em Avaré a fatores lunares. Uma revisão científica que avaliou 20 estudos sobre suicídios, tentativas e ameaças de suicídio concluiu que a maioria não encontrou relação entre esses episódios e as fases da Lua.
Os resultados positivos encontrados em alguns trabalhos eram conflitantes, não haviam sido reproduzidos ou estavam associados a outras variáveis.
O suicídio é considerado um fenômeno complexo e multifatorial. Questões relacionadas à saúde mental, sofrimento psíquico, condições sociais, familiares, econômicas e circunstâncias individuais podem se combinar de formas diferentes em cada pessoa.
“Ouvir já é um grande começo”
Os números ajudam a dimensionar o problema, mas não substituem o olhar para as pessoas. Em entrevista ao Em Pauta, a psicóloga Paula Felipe destaca que os primeiros sinais relacionados à depressão podem ser percebidos e que mudanças importantes de comportamento não devem ser ignoradas. Segundo a psicóloga, ouvir uma pessoa em sofrimento, sem julgamento, pode ser uma primeira forma de acolhimento.
“Ouvir já é um grande começo”, afirma. Paula também indica o CAPS como um dos caminhos adequados para quem precisa de cuidado em saúde mental. A profissional ressalta ainda que a depressão não deve ser tratada com a expectativa de desaparecer sozinha.
Segundo ela, é importante buscar acompanhamento profissional, que pode envolver psicólogo e psiquiatra de acordo com as necessidades de cada pessoa.
Onde buscar ajuda
O Ministério da Saúde orienta que pessoas em sofrimento psíquico procurem os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, ou as Unidades Básicas de Saúde. Esses serviços integram a Rede de Atenção Psicossocial do SUS e podem realizar acolhimento, avaliação e encaminhamento para acompanhamento.
Em situações de risco imediato, tentativa de suicídio ou emergência, a orientação é procurar o pronto-socorro ou hospital, ou acionar o SAMU pelo telefone 192.
O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, durante 24 horas por dia. O CVV é um serviço de escuta e apoio emocional. Em situações de emergência ou risco imediato, deve-se procurar os serviços de urgência.
Setembro termina. O cuidado continua
A principal contribuição do estudo da USP para Avaré não é a construção de um ranking. É o alerta. A pesquisa identificou que o município apresentou uma das maiores tendências históricas de crescimento da taxa de suicídio dentro do recorte estatístico analisado.
Anos depois, registros policiais e levantamentos jornalísticos mostram que novos casos continuam ocorrendo. As diferentes fontes não podem ser transformadas artificialmente em uma única série histórica, mas apontam para a mesma necessidade de atenção.
Prevenção, acesso aos serviços de saúde mental, acompanhamento profissional e construção de redes de apoio precisam existir durante todos os meses do ano. Setembro Amarelo termina. O cuidado com quem sofre não pode terminar com ele.
Fontes: Universidade de São Paulo. Sheila Genesine Dada. “Data mining espaço-temporal dos suicídios nas cidades brasileiras”. Escola Politécnica da USP, 2023. Tese USP
Ana Paula Alves da Silva. “Suicídio e violência autoprovocada: uma análise de 2016 a 2019 em Avaré”. Congresso de Iniciação Científica Eduvale, 2023. Publicação nos anais em 2024. Even3
A Voz do Vale. Levantamento baseado em dados atribuídos à Delegacia Seccional de Polícia de Avaré, publicado em 5 de dezembro de 2025. A Voz do Vale
Jornal In Foco. Levantamentos publicados em 8 de abril, 22 de maio e setembro de 2026. Jornal em Foco
Ministério da Saúde. Suicídio - Prevenção, Rede de Atenção Psicossocial e orientações sobre onde procurar ajuda. Serviços e Informações do Brasil
Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - SAMU 192. Serviços e Informações do Brasil
Martin, S. J.; Kelly, I. W.; Saklofske, D. H. “Suicide and lunar cycles: a critical review over 28 years”. Psychological Reports, 1992. PubMed
Entrevista ao Em Pauta. Psicóloga Paula Felipe.



