A poucos meses da eleição mais importante do país, um sentimento atravessa Brasília e o restante do Brasil: parte relevante do eleitorado não confia mais na classe política. Não se trata de um partido, um presidente ou um governo específico. É mais amplo - e mais grave.
Os números ajudam a entender o tamanho do problema.
R$ 4,96 bilhões para campanhas, R$ 9 trilhões de dívida O Fundo Especial de Financiamento de Campanha para as eleições de 2026 soma aproximadamente R$ 4,96 bilhões em recursos públicos. O valor não inclui outras fontes de financiamento permitidas por lei - o total efetivamente movimentado nas campanhas deve ser maior.
Ao mesmo tempo, a Dívida Pública Federal brasileira já ultrapassa R$ 9 trilhões. Não existe relação de causa e efeito entre os dois números. Mas a comparação expõe uma pergunta que o eleitor faz cada vez com mais frequência: quanto do dinheiro investido em campanhas - inclusive o gasto visível nas ruas, em placas, adesivos e materiais de propaganda - volta para a população em forma de serviço público, infraestrutura e resultado? Quando o retorno não aparece, o custo da política deixa de ser só financeiro. Vira custo de credibilidade.
Uma desconfiança que não é exclusividade de nenhum lado Pesquisas nacionais dos últimos anos colocam partidos políticos entre as instituições com menor índice de confiança da população. A polarização aprofundou esse quadro: para uma parte do eleitorado, quase tudo que o adversário faz está errado; para a outra, admitir qualquer erro de quem governa parece favorecer o lado oposto. Nesse ambiente, cresce um grupo que não se identifica com nenhum polo - e que começa a se afastar de ambos. A crítica deixa de mirar um político específico e passa a atingir a classe política como conjunto.
Abstenção: o maior "partido" nas urnas A abstenção é um dos sinais mais diretos dessa desconfiança. Em eleições municipais recentes, houve casos no país, como em Avaré, em que o número de eleitores que simplesmente não compareceu às urnas superou a votação do próprio candidato eleito. Diferenças de poucas dezenas ou centenas de votos definiram prefeituras inteiras, enquanto milhares de eleitores optaram por não participar. Isso não permite concluir que todo abstencionista rejeita a política - existem inúmeras razões para não votar, como a falta de um candidato que realmente se identifique com o que o eleitor procura. Mas um país não pode ignorar quando uma fatia expressiva do eleitorado escolhe a ausência como resposta.
Terceira via: espaço que só existe porque há quem o procure O noticiário nacional de 2026 já registra a ascensão de nomes fora dos dois polos que dominaram a política brasileira na última década - caso de Augusto Cury, que passou a ocupar espaço relevante no debate presidencial como alternativa aos grupos tradicionais.
Não é possível afirmar que todo eleitor interessado numa terceira via o faz por rejeição automática aos polos existentes. Mas o espaço não aparece por acaso: ele existe porque parte do eleitorado está disponível para ouvir algo diferente. Uma terceira via não se cria sozinha - ela encontra terreno quando a confiança nos grupos tradicionais já foi corroída.
O que os jovens estão cobrando Uma nova geração de eleitores chega às urnas tendo crescido num ambiente onde praticamente tudo fica registrado, pesquisável e comparável. Uma promessa de anos atrás pode ser recuperada em segundos. Um discurso pode ser confrontado com o resultado real em poucos cliques.
Essa geração não responde bem a propaganda vazia. Ela cobra coerência, transparência sobre uso de dinheiro público, e principalmente resultado. É provável que parte da pressão para que a política volte a discutir gestão - e menos torcida - venha justamente dos jovens, mais autônomos na forma como se informam e menos dispostos a aceitar discurso sem entrega.
Marketing não substitui presença Investir em comunicação institucional é legítimo: governos precisam informar, candidatos precisam apresentar propostas. O problema é quando a imagem tenta ocupar o lugar da realidade. Um vídeo bem produzido não substitui atendimento. Uma publicação não resolve um problema estrutural. Comunicação sem entrega tende a ser percebida como propaganda; entrega bem comunicada é o que constrói credibilidade.
O que está em jogo A pergunta que fica não é apenas quanto a política custa - é quanto ela devolve. Recursos bilionários movimentados em campanha, dívida pública em trajetória crescente, abstenção em alta e o surgimento de alternativas fora dos polos tradicionais são sintomas do mesmo diagnóstico: uma parcela relevante do eleitorado brasileiro deixou de acreditar que seu voto muda alguma coisa.
Reverter isso não depende de uma campanha publicitária. Depende de presença contínua, transparência sobre gastos, prestação de contas em linguagem acessível e, sobretudo, resultado que o cidadão consiga enxergar na própria rotina. A política vai continuar precisando de voto. Antes disso, vai precisar recuperar confiança.
Fontes Tribunal Superior Eleitoral — Fundo Especial de Financiamento de Campanha das Eleições Gerais de 2026. Tribunal Superior Eleitoral — regras de financiamento e limites de gastos eleitorais para 2026. Tesouro Nacional — relatórios da Dívida Pública Federal de 2026. Ipsos-Ipec — levantamentos nacionais sobre confiança nas instituições brasileiras. Pesquisas eleitorais nacionais de 2026 sobre a disputa presidencial e candidaturas apresentadas como alternativas aos polos tradicionais.



