Relações reveladas entre o Banco Master, políticos de diferentes campos ideológicos, dirigentes públicos e ministros do STF mostram que o problema brasileiro vai além de partidos. No interior, onde recursos, contratos e influência política também se encontram, a vigilância precisa começar perto de casa.
Em meu e-book Sua Voz Tem Lugar, parto de uma ideia que considero indispensável para compreender a política contemporânea: imagem pública não é maquiagem. Ela é construída a partir do comportamento, da entrega, da comunicação, da prova e da repetição. Não existe postagem, discurso ou campanha publicitária capaz de corrigir indefinidamente um problema que nasceu na conduta.
O caso Banco Master talvez seja hoje uma das demonstrações mais claras dessa distância entre narrativa e realidade.
Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado. A autoridade monetária citou grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional. Em março de 2026, o Banco Master Múltiplo também passou do regime especial de administração para a liquidação extrajudicial.
O que poderia ter permanecido como um enorme caso financeiro tornou-se algo muito maior.
As investigações começaram a revelar uma rede de relações que alcançou Congresso, governos, estruturas do Estado, fundos previdenciários e o próprio Supremo Tribunal Federal. Em julho, a Polícia Federal já chegava à décima fase da Operação Compliance Zero, inclusive apurando suspeitas de ações destinadas a comprometer a credibilidade do Banco Central, intimidar jornalistas, obter informações sigilosas e interferir em investigações.
E aqui começa a parte mais desconfortável: não é uma história que possa ser organizada simplesmente entre mocinhos de um lado e vilões do outro.
Quando direita e esquerda aparecem na mesma história
É preciso ter responsabilidade para tratar desse assunto. Ser mencionado em uma investigação, participar de uma reunião, receber uma doação eleitoral legal ou manter uma relação comercial não significa automaticamente praticar crime. Há situações muito diferentes entre si, e culpa só pode ser afirmada quando comprovada.
Mas as conexões políticas são amplas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024, em encontro que não constava inicialmente de sua agenda. O escândalo ainda não havia se tornado público. Lula posteriormente afirmou que disse ao banqueiro que as questões envolvendo o Master seriam tratadas tecnicamente pelo Banco Central, sem interferência política. O encontro, portanto, é fato; irregularidade por parte do presidente não está demonstrada por ele.
Já em junho de 2026, o senador Jaques Wagner, do PT, líder do governo no Senado, foi alvo de mandados de busca em uma fase da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal passou a apurar suspeitas sobre uma possível atuação parlamentar favorável a interesses ligados ao Master. Wagner negou irregularidades e ressaltou que não havia sido denunciado nem condenado.
Do outro lado do espectro político, o senador Flávio Bolsonaro, do PL, confirmou ter procurado Daniel Vorcaro para buscar financiamento privado para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Reportagens apontaram repasses de R$ 61 milhões para a produção. Flávio afirma que os recursos foram destinados integralmente ao projeto privado e nega ter oferecido qualquer vantagem ao banqueiro.
São fatos de naturezas diferentes. E justamente por isso precisam ser tratados sem torcida.
Transformar o Master em uma arma exclusivamente contra a direita ou contra a esquerda significa perder a principal lição que o episódio oferece: o dinheiro procura acesso ao poder, não necessariamente uma ideologia.
Quando a crise alcança o Supremo
Talvez nenhum aspecto do caso tenha produzido tanto impacto institucional quanto as revelações envolvendo integrantes do STF.
Dias Toffoli deixou a relatoria das investigações após a exposição de relações empresariais envolvendo uma empresa de sua família e um fundo ligado ao grupo de Daniel Vorcaro. O ministro sustentou que não havia impedimento formal, mas optou pelo afastamento diante dos questionamentos.
Mais recentemente, Alexandre de Moraes passou ao centro da crise. Análise da Polícia Federal sobre metadados apontou que o ministro realizou edições em um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. O escritório afirma que as informações solicitadas ao ministro estavam relacionadas ao procedimento de compliance, que os serviços foram efetivamente prestados e que Moraes não julgou causas do Master no STF. Mensagens extraídas do telefone de Vorcaro também passaram a ser objeto de investigação e forte controvérsia institucional. Até aqui, as revelações justificam apuração e questionamentos; não autorizam antecipar condenação.
O próprio ministro André Mendonça, que passou a conduzir o caso, confirmou ter recebido Vorcaro em 2025 para ouvi-lo sobre precatórios de interesse do banco. Mendonça afirma que se limitou a ouvir o empresário e destaca que posteriormente votou contra o interesse do Master. Ao mesmo tempo, seus métodos na condução atual da investigação também passaram a ser questionados dentro do Supremo.
Quando um caso financeiro consegue produzir questionamentos simultâneos sobre políticos, banqueiros, reguladores e integrantes da mais alta Corte do país, o problema deixa de ser apenas criminal.
Passa a ser uma crise de confiança institucional.
No meu e-book, escrevo que reputação depende da distância existente entre promessa e prática e que a verdade precisa sustentar qualquer narrativa. Para um agente político, a responsabilidade é ainda maior: escuta, coerência e resultado público não podem ser substituídos por promoção pessoal.
E quando quem deveria fiscalizar também entra na investigação?
Outro aspecto especialmente grave envolve estruturas do próprio Estado.
O Banco Central abriu investigação interna depois de suspeitas envolvendo antigos integrantes de sua área de fiscalização e supervisão. Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, passaram a ser investigados por possíveis relações impróprias com o grupo Master. Ambos tiveram condutas questionadas em apurações administrativas e policiais; suas responsabilidades individuais ainda precisam ser definidas nos processos próprios.
O caso chegou também a regimes previdenciários.
A Amapá Previdência aplicou recursos no Banco Master. A própria entidade informou que os investimentos representavam cerca de 4,7% de sua carteira e sustenta que, quando realizados, atendiam às regras então vigentes. A instituição ingressou com medidas para tentar recuperar os valores. Paralelamente, investigações federais passaram a examinar a gestão de investimentos relacionados ao banco.
O episódio foi suficientemente relevante para que as regras de investimento dos Regimes Próprios de Previdência ganhassem ainda mais atenção. Em 2026, o Ministério da Previdência reforçou critérios técnicos, prudenciais, de governança e de monitoramento para aplicação desses recursos.
É dinheiro de aposentadoria. Dinheiro de servidor. Dinheiro que precisa sobreviver a governos, partidos e interesses privados.
Mas isso acontece apenas em Brasília?
É nesse ponto que considero importante tirar os olhos da capital federal.
No início de 2017, eu estava em uma prefeitura de nossa região aguardando um atendimento quando ouvi uma conversa que nunca esqueci.
Uma assessora regional de determinado deputado federal - conhecido justamente pela capacidade de “ajudar” municípios da região - conversava sobre algo que, aos meus ouvidos naquele momento, parecia envolver a articulação de empresas para uma futura licitação.
A conversa me deu a impressão de que o próprio grupo político poderia apresentar empresas interessadas no certame.
Não procurei documentos. Não acompanhei o processo. Não sei sequer qual foi o desfecho daquela situação e, por isso, não tenho elementos para afirmar que houve direcionamento, fraude ou qualquer crime. Seria irresponsável fazê-lo.
O que permaneceu foi a decepção.
Porque naquele instante eu me perguntei algo que continua atual: quando um político anuncia que conseguiu recursos, obras ou benefícios para determinada cidade, o que existe por trás daquela ajuda?
Na imensa maioria das vezes pode existir apenas trabalho político legítimo. Deputados têm exatamente a função de representar municípios, apresentar emendas, intermediar demandas e buscar recursos.
Mas a fiscalização precisa perguntar também quem executará a obra, como será feita a contratação, quantas empresas concorreram, quem elaborou as exigências do edital, se existiam relações anteriores entre os envolvidos e qual foi o preço final pago pela população.
Essa fiscalização não deve ser seletiva.
O mecanismo muda de tamanho, não necessariamente de lógica
Brasília movimenta bilhões e concentra ministros, senadores, deputados, presidentes de instituições e grandes empresários.
Uma pequena cidade movimenta cifras menores.
Mas alguns riscos são semelhantes: proximidade excessiva entre poder público e interesses privados, indicações políticas, influência sobre contratos, editais excessivamente específicos, fornecedores recorrentes e a personalização de benefícios que, na verdade, pertencem ao Estado e à população.
Isso não significa afirmar que toda licitação possui fraude, que toda emenda esconde interesse ou que todo político que ajuda um município espera uma contrapartida.
Significa exatamente o contrário: é preciso separar política legítima de captura do Estado por meio de transparência, documentos e controle.
Há exemplos concretos de que esse controle também precisa existir aqui. Em setembro de 2024, o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo julgou irregular uma licitação e um contrato de Avaré referentes à construção de uma creche e determinou ciência ao Ministério Público estadual. Uma decisão administrativa de irregularidade não é, por si só, uma condenação criminal por corrupção. Mas demonstra que problemas em contratações públicas não pertencem apenas ao noticiário de Brasília.
A política está perdendo pessoas pelo caminho
Em meu livro, escrevo que o público avisa antes de se afastar. Antes de uma reputação se romper completamente surgem queda de confiança, perguntas repetidas, reclamações, pouca participação e distanciamento.
Vale olhar para Avaré.
No primeiro turno das eleições municipais de 2024, 17.054 eleitores não compareceram às urnas, o equivalente a 26,52% do eleitorado apto.
Se forem somados ausentes, votos brancos e votos nulos, 22.555 eleitores - 35,07% do eleitorado - não escolheram nenhum candidato a prefeito.
Seria metodologicamente errado dizer que essas pessoas deixaram de votar por causa de corrupção ou descrença política. Abstenção possui diversas causas.
Mas seria igualmente imprudente ignorar o tamanho do distanciamento.
Para as gerações mais velhas, esse desgaste pode ser especialmente difícil de compreender. Quem hoje tem 60, 70 ou 80 anos atravessou ditadura, redemocratização, impeachment de presidente, mensalão, Lava Jato, sucessivos escândalos em estatais e agora acompanha as revelações do Banco Master quase em tempo real.
A sensação de repetição pode produzir uma frase extremamente perigosa para a democracia:
“São todos iguais.”
Não são.
E acreditar que são todos iguais só beneficia quem não quer ser fiscalizado.
A globalização digital não criou o problema. Ela abriu as cortinas
Durante décadas, muitas articulações políticas permaneciam restritas a gabinetes, restaurantes, telefonemas e conversas de corredor.
A transformação digital mudou essa realidade.
Hoje existem mensagens recuperadas de celulares, áudios, metadados de documentos, bases públicas, portais de transparência, diários oficiais digitalizados, sistemas de Tribunais de Contas e milhões de cidadãos capazes de compartilhar uma informação em segundos.
A tecnologia não inventou relações impróprias entre dinheiro e poder.
Ela reduziu o espaço onde elas podiam permanecer escondidas.
Isso traz um risco: a denúncia sem prova, o julgamento instantâneo e a destruição de reputações antes da investigação.
Mas traz também uma oportunidade histórica: nunca foi tão possível acompanhar o poder público.
No Sua Voz Tem Lugar, defendo que comunicação política responsável deve apresentar fatos, competências, encaminhamentos e resultados comprováveis - sem transformar solicitação em conquista, sem usar números sem fonte e sem personalizar serviços que pertencem à administração pública.
Talvez seja justamente essa a grande discussão que o caso Master deveria provocar fora de Brasília.
Não apenas quem recebeu dinheiro, quem falou com quem ou qual partido será mais atingido.
Mas qual modelo de relação entre poder econômico e poder político estamos dispostos a aceitar.
A resposta à decepção não pode ser abandonar a política
Se existe uma conclusão que gostaria de deixar, é esta: a pior consequência de um escândalo não é apenas o dinheiro eventualmente perdido.
É fazer uma sociedade desistir de fiscalizar porque passou a acreditar que nada pode ser diferente.
É exatamente aí que o cidadão entrega ainda mais espaço para quem age errado.
A resposta precisa ser a oposta.
Olhar o Portal da Transparência. Acompanhar o Tribunal de Contas. Ler os editais. Perguntar de onde veio o recurso anunciado por um deputado. Conferir quem venceu a licitação. Cobrar o vereador. Acompanhar a Câmara. Questionar contratos. Apoiar jornalismo independente. Distinguir denúncia de prova e relacionamento de corrupção.
E, principalmente, cobrar o mesmo padrão de quem está à direita, à esquerda ou no partido em que votamos.
Porque ética pública que muda conforme o nome do investigado não é ética.
É torcida.
E talvez o Banco Master tenha oferecido ao Brasil uma oportunidade incômoda, mas necessária: perceber que a crise não está apenas em Brasília.
Ela começa toda vez que o interesse público pode ser confundido com favor pessoal, quando o acesso ao poder substitui a igualdade de oportunidades e quando a população deixa de perguntar como as coisas acontecem.
Brasília está muito mais perto de nós do que parece.
E a fiscalização também precisa estar.
Nota de responsabilidade editorial: as investigações relacionadas ao Banco Master continuam em andamento. Menções a autoridades, políticos, servidores ou familiares não significam culpa ou condenação. O artigo distingue fatos comprovados, relações públicas conhecidas, suspeitas sob investigação e versões apresentadas pelos envolvidos. O episódio regional de 2017 é uma memória pessoal da autora, não uma acusação de irregularidade contra pessoa identificada.



