Antes de chegar aos livros escolares, o folclore já fazia parte da vida.

Estava nas histórias contadas pelos mais velhos, nas crianças brincando nas calçadas, nas receitas preparadas sem medidas exatas, nas cantigas, nos ditados populares e nos “causos” que misturavam acontecimentos, imaginação e um pouco de mistério.

Em Avaré, como em diferentes cidades do interior paulista, essa herança pode ser percebida nas festas comunitárias, na música caipira, nas brincadeiras transmitidas entre gerações e nas lembranças preservadas pelas famílias.

O folclore não se resume ao Saci-Pererê, à Cuca, ao Curupira ou à Mula sem Cabeça. Ele também está na forma como um povo fala, cozinha, celebra, trabalha, cria e compartilha suas experiências.

Por que o Dia do Folclore é celebrado em 22 de agosto?

A data lembra o dia 22 de agosto de 1846, quando o pesquisador britânico William John Thoms utilizou pela primeira vez o termo “folk-lore”, formado pelas palavras inglesas “folk”, que significa povo, e “lore”, relacionada a conhecimento ou saber.

No Brasil, o Dia do Folclore foi instituído pelo Decreto Federal nº 56.747, de 17 de agosto de 1965. O texto estabeleceu que a comemoração deveria ocorrer anualmente em 22 de agosto, em todo o território nacional, como forma de valorizar os estudos e proteger as manifestações da cultura popular brasileira.

Mais de seis décadas depois, a data continua sendo um convite para olhar além dos personagens conhecidos e reconhecer o folclore presente na vida cotidiana.

A cultura caipira na memória de Avaré

Uma das referências que ajudam a aproximar o tema da história avareense é Francisco Soares, conhecido como Nhô Musa.

Nascido em Lençóis Paulista, em 1900, o poeta passou a maior parte de sua vida em Avaré. Durante a década de 1950, comandou os programas “Luar do Sertão” e “Rancho Alegre” na antiga Rádio Avaré.

Seus textos abordavam a roça e a vida no interior, transformando cenas do cotidiano, personagens e experiências da cultura caipira em poesia. Parte dessa produção foi reunida no livro “Só Poesia”.

A trajetória de Nhô Musa mostra como a memória de uma comunidade também pode ser preservada pela palavra, pelo rádio e pela literatura popular. Em 2026, o tradicional Arraiá do Nhô Musa voltou a movimentar a Concha Acústica com música, comidas típicas e participação de escolas e entidades avareenses.

Mais do que uma festa, a permanência do nome e da obra do poeta no calendário cultural representa uma ligação entre diferentes gerações de moradores.

Muito além das lendas

De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, o patrimônio cultural imaterial pode se manifestar por meio de saberes, celebrações, formas de expressão e lugares onde as práticas coletivas são mantidas.

Isso significa que uma receita transmitida dentro da família, uma dança tradicional, uma cantiga, uma festa religiosa, um modo artesanal de produzir determinado objeto ou uma história contada repetidamente também podem integrar a cultura de uma comunidade.

No Estado de São Paulo, o folclore aparece na gastronomia, nas cavalhadas, na Folia de Reis, nas festas de São Benedito e do Bom Jesus, no artesanato, na música, nas danças e nas lendas que ganharam diferentes versões pelo interior.

Algumas tradições desaparecem ou se transformam com o passar do tempo. Outras encontram novas formas de continuar existindo. Uma cantiga que antes era aprendida na rua pode chegar às crianças pela escola. Uma receita anotada em um caderno pode ser compartilhada pela internet. Uma história contada pelos avós pode se transformar em vídeo, livro ou apresentação cultural.

Preservar o folclore, portanto, não significa manter os costumes parados no tempo. Significa reconhecer sua importância e permitir que continuem sendo transmitidos, recriados e vividos.

Neste 22 de agosto, o Dia do Folclore deixa uma pergunta para cada família: quais histórias, receitas, expressões, músicas e costumes ainda são transmitidos dentro de casa?

Talvez a resposta mostre que o folclore não está distante. Ele pode estar na lembrança de uma infância em Avaré, numa festa da cidade, numa poesia caipira ou em uma história que alguém ainda espera para contar.