Eu tenho 165 anos. Ou talvez seja mais correto dizer que há 165 anos escolheram uma data para representar o começo da minha história.

15 de setembro de 1861 ficou consagrado como meu nascimento. Mas nenhuma cidade nasce num único dia. Minha história foi sendo construída aos poucos. Em 1862, terras foram destinadas ao patrimônio de Nossa Senhora das Dores do Rio Novo. Depois vieram a cruz, a capela, as casas, os caminhos e as pessoas.

Não me fizeram de uma vez. Fizeram-me no tijolo assentado, na porteira aberta cedo, na primeira venda, na sala de aula, na missa, no jornal impresso, no comércio que levantou a porta pela manhã e na família que decidiu ficar.

Continuam me fazendo todos os dias. Hoje, eu sou 96.450 No último Censo, em 2022, éramos 92.805.

A estimativa oficial do IBGE para 2025 elevou minha população para 96.450 habitantes. Em apenas três anos, são 3.645 pessoas a mais, um crescimento de aproximadamente 3,93%.

Estou chegando perto dos 100 mil. Mas não quero que você me enxergue apenas como um número.

No Censo 2022, 50,5% da minha população era formada por mulheres e 49,5% por homens. Em cada domicílio viviam, em média, 2,71 pessoas. Traduzido para a vida real, são dezenas de milhares de famílias, histórias e rotinas acontecendo ao mesmo tempo dentro de mim. Tenho 1.213,055 quilômetros quadrados de território.

No último Censo, minha densidade era de 76,51 habitantes por quilômetro quadrado. Sou cidade, mas também sou campo. Sou bairro, centro, estrada rural, lavoura, água e horizonte.

Antes de ser Avaré, eu fui Rio Novo

Nem sempre me chamaram assim. Durante parte da minha infância, fui Nossa Senhora das Dores do Rio Novo. Em 7 de julho de 1875, a antiga freguesia foi elevada à categoria de vila e ganhou autonomia política. Minha primeira Câmara seria instalada no ano seguinte.

Só em 1891 eu passaria oficialmente a carregar o nome que atravessaria gerações: Avaré. Portal de Revistas da USP Mudei de nome. Cresci. Ganhei ruas, escolas, igrejas, praças, empresas, bairros e novas gerações.

Mas continuei sendo feita essencialmente da mesma matéria: gente.

Também aprendi cedo a contar minhas próprias histórias

Muito antes da internet, das redes sociais e dos portais de notícias, já havia quem entendesse que uma cidade precisava registrar a própria história.

Em 1888, Maneco Dionísio fundou O RioNovense, apontado pela história oficial da Câmara como meu primeiro jornal. Pelas páginas do periódico, ele também defendeu uma mudança no traçado ferroviário para que a estrada de ferro chegasse ao município.

Talvez por isso a imprensa tenha um significado especial na minha trajetória. Uma cidade existe enquanto suas pessoas vivem.

Mas sua memória permanece quando alguém decide contar o que aconteceu.

A mulher que me deu cores

Décadas depois, outra jornalista faria parte da minha história. O nome dela era Anita Ferreira De Maria. Poetisa, escritora, cronista e jornalista, Anita olhou para mim e transformou território em símbolo.

Foi dela o desenho da bandeira que a Lei nº 740, de 11 de agosto de 1971, tornou oficial. Sino Câmara Avaré Ela escolheu três faixas.

O verde representa os campos, as matas e a agricultura. O branco traduz a paz, a serenidade e a índole do povo avareense.

O azul representa o céu. Mas Anita fez mais do que escolher minhas cores.

Em 1972, fundou o museu histórico e ajudou a transformar documentos, objetos e lembranças em patrimônio coletivo. Foi diretora da instituição até 1985. Hoje, o Museu Municipal leva seu nome.

Ela escreveu sobre mim. Preservou minha memória.

E me deixou cores para que eu pudesse ser reconhecida mesmo quando nenhuma palavra fosse necessária. Eu não sou apenas 165 anos Eu sou quem nasceu aqui.

Sou também quem chegou ontem. Sou quem foi embora e continua dizendo que é avareense. Sou quem abre uma empresa, dirige um ônibus, ensina uma criança, cuida de um paciente, planta, vende, constrói, limpa, cozinha, fotografa, escreve, empreende e trabalha.

Sou quem vive no centro e quem mora longe dele. Sou a criança que ainda vai descobrir minhas histórias e sou a pessoa idosa que conheceu uma Avaré que já não existe da mesma maneira.

Eu guardo marcas de todas elas. Porque uma cidade não é construída apenas por prefeitos, prédios, avenidas ou datas oficiais. Uma cidade é construída por gente.

E amanhã? Talvez essa seja a pergunta mais importante dos meus 165 anos. Eu cresci.

Hoje sou quase 100 mil pessoas. Mas completar aniversário não significa apenas olhar para trás.

Significa perguntar que cidade quero ser quando chegar aos 170, aos 180, aos 200 anos.

Como vou cuidar das minhas crianças?

Como vou envelhecer com quem envelhece dentro de mim? Como vou crescer sem esquecer minha história? Como vou receber quem chega sem abandonar quem sempre esteve aqui? Como vou preservar minhas águas, meu território e minha memória? Essas respostas não estão nos documentos antigos.

Ainda estão sendo escritas.

Por você. Eu, Avaré

Não me fizeram apenas em 1861. Não me fizeram apenas em 1875. Nem quando deixei de ser Rio Novo e passei a me chamar Avaré.

Fazem-me todos os dias. Há 165 anos.

E a próxima parte da minha história começa agora.

Fontes principais: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo Demográfico 2022 e Estimativas da População 2025; Câmara de Vereadores da Estância Turística de Avaré; Prefeitura da Estância Turística de Avaré; Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo; legislação municipal; Museu Municipal Anita Ferreira De Maria; Secretaria Nacional de Trânsito.