Esta matéria integra o Especial Avaré 165 anos, série do Em Pauta que revisita fatos, transformações e desafios que ajudam a contar a história do município, fundado oficialmente em 15 de setembro.

A chuva cai, a água sobe e, para muitos moradores de Avaré, a sensação é de já ter visto aquela cena antes.

Ruas tomadas pela enxurrada, comerciantes tentando salvar mercadorias, moradores retirando água de dentro de casa, carros presos ou arrastados e equipes correndo para atender ocorrências.

O temporal desta quinta-feira, 10 de setembro, acrescenta mais um capítulo a uma história que Avaré conhece há décadas.

Um levantamento do Em Pauta Avaré, feito a partir de documentos oficiais, Semanários, decretos e registros históricos, mostra que as enchentes estão longe de ser um problema recente.

Em 2008, o problema já tinha mais de 30 anos

Um dos registros mais reveladores aparece no Semanário Oficial de fevereiro de 2008.

Naquela época, a própria Prefeitura anunciava trabalhos para enfrentar alagamentos que, segundo a publicação, atingiam o Centro havia mais de 30 anos.

O documento citava o Córrego Água Branca e apontava que intervenções urbanas realizadas ao longo do tempo haviam reduzido sua capacidade de vazão.

Entre os cruzamentos historicamente atingidos estavam Goiás com Alagoas, Voluntários de Avaré com Maranhão e Distrito Federal com Maranhão.

Ou seja, antes mesmo de muitos moradores atuais nascerem, a cidade já discutia como evitar que a água tomasse as ruas centrais.

2010 ficou marcado pelos prejuízos

Se existe um ano que simboliza a força das enchentes em Avaré, 2010 está entre os principais.

Depois de semanas de chuva, documentos municipais registraram água chegando a 1,5 metro e até dois metros de altura em alguns locais.

Centro, Avenida Paulo Novaes, Vila Martins, Jardim Paraíso, Jardim Tropical e Jardim Brasil estavam entre as regiões atingidas.

Na zona rural, o cenário também era grave. Cerca de 70% dos aproximadamente 1.250 quilômetros de estradas rurais ficaram intransitáveis.

Para quem vivia no campo, isso significava dificuldade para sair de casa, transportar estudantes, receber atendimento e escoar produção.

Mas o número que mais impressiona veio depois.

A Prefeitura estimou que os prejuízos provocados pelas chuvas haviam ultrapassado R$ 100 milhões, em valores da época.

Famílias atingidas chegaram a receber os chamados kits enchente, numa demonstração de que o desastre não atingiu apenas ruas e pontes. Entrou dentro das casas.

2011: milhares de pessoas novamente atingidas

No ano seguinte, a história se repetiu.

Avaré voltou a enfrentar situação de emergência.

Cerca de 300 quilômetros de estradas rurais ficaram comprometidos, enquanto na área urbana foram registrados problemas em residências, estabelecimentos comerciais, pavimentação, redes de água, energia e esgoto.

Registros da época apontam ainda aproximadamente 2 mil consumidores sem energia elétrica.

O Governo Federal destinou R$ 1,04 milhão ao município para ações emergenciais.

E 2011 teria ainda outro episódio grave.

Em outubro, um novo desastre aparece no Atlas Brasileiro de Desastres Naturais com 35.100 pessoas afetadas, o maior número encontrado neste levantamento para um único episódio de inundação em Avaré.

2022: carros arrastados e uma rua que desapareceu

Doze anos depois, as imagens mudaram de qualidade, passaram a circular rapidamente pelas redes sociais, mas o cenário era familiar.

Em 1º de fevereiro de 2022, mais de 100 milímetros de chuva caíram em aproximadamente uma hora.

A enxurrada tomou ruas do Centro.

Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Pernambuco, Maranhão, Alagoas, Major Rangel e Rio de Janeiro estavam entre os pontos atingidos.

Carros ficaram submersos.

Um deles foi arrastado pela água.

Casas e lojas foram invadidas.

Na Rua Rio de Janeiro, parte do asfalto cedeu e uma grande cratera se abriu. Objetos desapareceram dentro do buraco e uma motocicleta foi levada pela força da água.

Duas pessoas ficaram desabrigadas.

Dias antes, bombeiros já haviam precisado usar bote para retirar moradores de áreas alagadas na região central.

2025: mais de 215 milímetros em pouco mais de um dia

Em dezembro de 2025, Avaré voltou a declarar situação de emergência.

Entre a noite do dia 8 e o final do dia 9, foram registrados **215,4 milímetros de chuva**, acompanhados por ventos de até 90 km/h.

Ruas ficaram alagadas, carros foram atingidos, casas receberam água e lama e houve quedas de árvores, danos em imóveis e outros prejuízos.

O mês terminou com 388 milímetros de chuva, volume muito acima da média climatológica.

Mais uma vez, a cidade precisou contabilizar os estragos depois que a água baixou.

Milhões investidos para tentar conter um problema antigo

Ao longo dessas décadas, diferentes governos anunciaram projetos para enfrentar as enchentes.

Em 2010, foi apresentado um projeto estimado em R$ 33 milhões, que previa obras de drenagem e grandes reservatórios de contenção.

Agora, em 2026, uma nova intervenção de grande porte está em andamento na região central.

O investimento anunciado é de aproximadamente R$ 12,2 milhões, com obras de drenagem, pavimentação e recapeamento em trechos das ruas Pernambuco, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.

São justamente algumas das áreas historicamente afetadas por alagamentos.

Uma nova obra para tentar mudar essa história

A expectativa é que a nova obra de drenagem consiga atacar justamente os pontos mais graves da região central, ampliando a capacidade de escoamento da água e reduzindo os alagamentos que há décadas atingem moradores, comerciantes e motoristas.

O projeto representa uma das intervenções mais importantes dos últimos anos no sistema de drenagem central e deve ser decisivo para avaliar se Avaré conseguirá finalmente reduzir os efeitos das chuvas mais intensas nesses trechos.

A obra ainda está em execução e seus resultados precisarão ser observados ao longo do tempo, especialmente durante períodos de precipitação forte.

Mas, depois de décadas de enchentes, prejuízos milionários e repetidas cenas de ruas tomadas pela água, a intervenção atual carrega uma expectativa clara: resolver ou ao menos reduzir de forma significativa os problemas mais graves das ruas centrais.

No ano em que Avaré completa **165 anos**, olhar para essa história é também olhar para um dos desafios que atravessaram gerações.

E talvez este seja o momento em que essa história comece, enfim, a mudar.

Fontes

Semanário Oficial da Estância Turística de Avaré, edição de 23 de fevereiro de 2008, com registros sobre mais de três décadas de alagamentos no Centro e problemas relacionados ao Córrego Água Branca.

Semanários e decretos municipais de 2010, com registros de água entre 1,5 e 2 metros, estradas rurais comprometidas e estimativa municipal superior a R$ 100 milhões em prejuízos.

Atlas Brasileiro de Desastres Naturais e documentos referentes a 2011, com registros de milhares de pessoas afetadas, danos urbanos e rurais e liberação de recursos emergenciais.

Decreto Municipal nº 6.672/2022 e registros sobre o temporal de fevereiro de 2022, incluindo enxurradas, carros arrastados, imóveis inundados e a cratera na Rua Rio de Janeiro.

Decreto Municipal nº 8.583/2025 e dados meteorológicos de dezembro de 2025, com registro de 215,4 milímetros de chuva em pouco mais de um dia e 388 milímetros no mês.

Prefeitura da Estância Turística de Avaré, informações de 2026 sobre a obra de drenagem estimada em R$ 12,2 milhões na região central.