Avaré voltou a enfrentar transtornos provocados pela chuva nesta quinta-feira, 10 de setembro. O acúmulo de água atingiu ruas da região central e dificultou a circulação de veículos e pedestres, trazendo novamente à discussão um problema antigo do município: os alagamentos urbanos.

A ocorrência acontece justamente em um momento em que Avaré executa uma obra de drenagem de grande porte na região central, planejada para ampliar a capacidade de escoamento da água em alguns dos pontos historicamente atingidos pelas enchentes.

O problema, no entanto, está longe de ser recente.

Uma pesquisa em documentos oficiais, publicações do município, registros da Câmara e reportagens de diferentes períodos mostra que as enchentes fazem parte da história urbana de Avaré há décadas.

Em 2008, Prefeitura dizia que problema já durava mais de 30 anos

Um dos documentos mais importantes encontrados pelo Em Pauta está no Semanário Oficial de 23 de fevereiro de 2008.

Naquele momento, a própria Prefeitura publicou que havia iniciado trabalhos para enfrentar os alagamentos que, segundo o texto oficial, atingiam o Centro havia mais de 30 anos.

A publicação relacionava o problema ao Córrego Água Branca e apontava redução de sua capacidade de vazão ao longo do processo de urbanização.

O município informava que estava realizando levantamento de imóveis situados ao longo do trajeto original do córrego e estudando intervenções.

O documento ainda relacionava como principais pontos de alagamento cruzamentos como:

Rua Goiás com Rua Alagoas;

Rua Voluntários de Avaré com Rua Maranhão;

Rua Distrito Federal com Rua Maranhão.

Se em 2008 o problema já era descrito oficialmente como existente havia mais de três décadas, os relatos remetem, portanto, pelo menos à década de 1970.

Isso significa que diferentes gerações de moradores, comerciantes e administrações municipais conviveram com a mesma questão urbana ao longo de aproximadamente cinco décadas.

Em 2005, enchentes já arrastavam veículos no Centro

Há registros ainda anteriores.

Em janeiro de 2005, o Semanário Oficial informou que fortes chuvas haviam provocado novamente enchentes no Centro.

Naquela ocasião, segundo a publicação, veículos chegaram a ser carregados pela força da água nas proximidades da região central.

O próprio texto utilizava a expressão "mais uma vez", demonstrando que aquele episódio não era tratado como uma ocorrência isolada.

A Prefeitura informava, naquele momento, que aguardava tratativas com o Governo Federal para a construção de piscinões e galerias que deveriam enfrentar definitivamente o problema.

Ainda em 2005, a gravidade das enchentes levou o tema ao Legislativo.

Uma lei complementar chegou a prever isenção de IPTU para imóveis atingidos por enchentes no município. A norma posteriormente teve sua vigência suspensa por decisão judicial, mas sua própria existência demonstra o impacto que as inundações já provocavam naquele período.

Em outubro daquele mesmo ano, um requerimento aprovado pela Câmara solicitava à Defesa Civil estudos sobre os períodos das enchentes, danos provocados e áreas atingidas.

O texto legislativo já classificava as enchentes como um problema que assolava Avaré havia décadas.

Obras contra enchentes já eram anunciadas em 2008

O levantamento mostra ainda que, naquele mesmo ano de 2008, o município anunciou desapropriações, demolições e obras com a finalidade de solucionar as inundações na área central.

Publicações do Semanário Oficial de março daquele ano registram o início dessas intervenções.

Ou seja, as tentativas de alterar a infraestrutura de drenagem do Centro também não são recentes.

Mesmo após essas ações, os registros de alagamentos continuaram aparecendo em documentos públicos nos anos seguintes.

Avaré chegou a ter situação de emergência reconhecida em 2010

Em março de 2010, o Semanário Oficial publicou que o Governo do Estado de São Paulo havia reconhecido situação de emergência em áreas de Avaré em razão dos estragos provocados pelos temporais.

A medida ocorreu depois de decreto municipal de emergência.

A publicação mostrava danos provocados por erosões, enchentes e destruição de infraestrutura.

O episódio evidencia que, além dos tradicionais alagamentos na região central, chuvas intensas também provocaram impactos em estradas, pontes e outras regiões do município.

Câmara voltou a cobrar ações em 2014, 2015 e 2016

Os registros oficiais continuam nos anos seguintes.

Em novembro de 2014, requerimento aprovado pela Câmara mencionava que fortes pancadas de chuva provocavam alagamentos, desmoronamentos de vias e outros transtornos em diferentes pontos da cidade.

O Legislativo questionava se havia sido realizada manutenção preventiva e limpeza das galerias pluviais durante o período de estiagem.

Também em 2014 houve questionamento sobre a adesão de Avaré a programa federal relacionado à drenagem urbana e manejo de águas pluviais.

Em março de 2015, uma indicação legislativa chegou a pedir a instalação de placas com a mensagem "Área sujeita a alagamento" nos locais com incidência de enchentes.

A solicitação foi reiterada em 2016.

Os documentos mostram que a recorrência dos alagamentos já era suficientemente conhecida para gerar a discussão sobre a necessidade de sinalizar áreas de risco.

Temporal de 2022 expôs novamente os pontos críticos

Um dos episódios mais graves dos últimos anos ocorreu em fevereiro de 2022.

A Prefeitura estimou que aproximadamente 110 milímetros de chuva atingiram a área urbana em cerca de 40 minutos.

O volume provocou alagamentos, danos à infraestrutura, entrada de água em imóveis e transtornos em diferentes regiões.

Na área central, pelo menos sete vias foram relacionadas entre os pontos atingidos:

Rua Rio Grande do Sul;

Rua Mato Grosso;

Rua Pernambuco;

Rua Maranhão;

Rua Alagoas;

Avenida Major Rangel;

Rua Rio de Janeiro.

O Largo do Mercado e o Largo São João também foram atingidos.

Na Rua Rio de Janeiro, uma cratera chegou a se abrir durante a enxurrada.

Naquele episódio, duas pessoas ficaram desabrigadas e famílias precisaram receber atendimento. Não houve registro de feridos.

Dias antes, outra chuva já havia causado alagamento no pontilhão da Rua Lineu Prestes e em trecho da Rua Maranhão.

Os registros de 2022 ajudam a identificar um padrão: várias das ruas atingidas naquele temporal aparecem novamente nos projetos atuais de drenagem.

Nova obra de mais de R$ 12 milhões está em andamento

Em março de 2026, a Prefeitura anunciou um novo projeto para enfrentar as enchentes na área central.

O investimento divulgado supera R$ 12 milhões e é realizado por meio de convênio entre o município e o Governo do Estado de São Paulo.

O contrato prevê implantação de drenagem profunda, modernização da infraestrutura viária, pavimentação e recapeamento.

No anúncio inicial, a primeira fase previa intervenções em trechos das ruas Pernambuco, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.

Posteriormente, durante a execução, atualizações oficiais passaram a destacar trechos das ruas Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Alagoas e Mato Grosso.

As obras começaram efetivamente em maio, inicialmente nas proximidades do Mercado Municipal.

Grandes estruturas de concreto, conhecidas como aduelas, estão sendo instaladas para aumentar a capacidade da galeria de águas pluviais.

No final de agosto, a obra já havia avançado da Rua Santa Catarina, passado pela Rua Rio Grande do Sul e chegado ao cruzamento com a Rua Alagoas.

Alagamento durante a obra não significa, por si só, que projeto falhou

O fato de a região voltar a registrar problemas enquanto a obra está em andamento precisa ser analisado com cautela.

O sistema ainda não está concluído.

Portanto, tecnicamente, não é possível avaliar a eficiência final da nova drenagem apenas com base nos episódios registrados durante sua execução.

A questão que poderá ser acompanhada nos próximos períodos de chuva é quanto a nova estrutura conseguirá reduzir o volume, a velocidade e o tempo de permanência da água nos pontos historicamente atingidos.

Por que o Centro sofre tanto?

Os próprios documentos municipais ajudam a explicar parte da situação.

A região central tem alto grau de impermeabilização, com ruas asfaltadas, calçadas, telhados e construções que reduzem a capacidade natural de absorção da água pelo solo.

Há ainda cursos d'água canalizados ou que sofreram interferências ao longo do crescimento urbano.

Em 2008, o município apontava especificamente alterações no Córrego Água Branca como um dos fatores relacionados aos alagamentos.

Em 2022, levantamento municipal também citou gargalos no Ribeirão Lajeado, além de problemas no Córrego do Cortume e no chamado Córrego do Burrinho.

Isso mostra que o problema envolve uma combinação de volume de chuva, impermeabilização urbana, capacidade das galerias e características dos cursos d'água.

Não é possível atribuir cada episódio a uma única causa sem análise técnica específica.

Chuva desta semana já estava no radar da Defesa Civil

A chuva desta quinta-feira ocorre em um cenário de instabilidade meteorológica previsto para o Estado de São Paulo.

A Defesa Civil havia alertado para pancadas de chuva de intensidade moderada a forte entre quarta-feira, 9, e quinta-feira, 10, acompanhadas por raios e rajadas de vento.

Entre os riscos destacados pelo órgão estavam justamente alagamentos e enxurradas.

A preocupação com o tempo também levou a Prefeitura de Avaré a anunciar nesta quinta-feira mudanças na programação da EMAPA por causa do risco de novos temporais.

Um problema que atravessou administrações

Os documentos consultados pelo Em Pauta mostram que seria incorreto atribuir o problema das enchentes do Centro exclusivamente a uma única administração municipal.

Os registros atravessam diferentes governos e décadas.

Há anúncios de soluções, obras, pedidos de recursos, intervenções, cobranças legislativas e novos projetos desde pelo menos o início dos anos 2000.

Mais importante ainda: em 2008, documento oficial já reconhecia que os alagamentos vinham ocorrendo havia mais de 30 anos.

A atual obra representa uma nova tentativa de enfrentar estruturalmente o problema.

O resultado poderá ser medido somente após sua conclusão e diante de novos episódios de chuvas intensas.

Enquanto isso, o histórico mostra que, para moradores e comerciantes da área central, olhar para o céu quando a chuva aperta ainda significa também acompanhar o nível da água nas ruas.

### Orientação à população

Durante chuvas intensas, a recomendação é não tentar atravessar ruas alagadas, mesmo quando a profundidade da água parece pequena.

Motoristas devem procurar caminhos alternativos.

Pedestres também devem evitar caminhar em áreas inundadas, já que bueiros, buracos e outros obstáculos podem ficar escondidos.

Em casos de emergência:

Defesa Civil: 199

Corpo de Bombeiros: 193

Registro de rua da região central de Avaré durante período de chuva, com água acumulada sobre a pista e dificuldades para circulação de veículos. A imagem ilustra os transtornos provocados pelos alagamentos urbanos.

### Fontes

Semanário Oficial da Estância Turística de Avaré, edição de 28 de janeiro de 2005. A publicação relata enchentes no Centro, veículos carregados pela água e proposta de construção de piscinões e galerias.

Câmara Municipal de Avaré, Requerimento nº 1807/2005, de 31 de outubro de 2005. O documento pede levantamento das enchentes e afirma que o problema atingia o município havia décadas.

Câmara Municipal de Avaré, Lei Complementar nº 57/2005, que previa isenção de IPTU para imóveis atingidos por enchentes. A vigência da norma foi posteriormente suspensa por decisão judicial.

Semanário Oficial da Estância Turística de Avaré, edição de 23 de fevereiro de 2008. Documento afirma que os alagamentos no Centro se arrastavam havia mais de 30 anos e relaciona pontos críticos e o Córrego Água Branca.

Arquivo do Semanário Oficial de Avaré, março de 2008, com registros de desapropriações, demolições e obras de prevenção contra enchentes na área central.

Semanário Oficial da Estância Turística de Avaré, edição de 13 de março de 2010. Publicação informa reconhecimento estadual da situação de emergência após temporais no município.

Câmara Municipal de Avaré, Requerimento nº 1828/2014. Documento menciona alagamentos, desmoronamentos de vias e questiona a manutenção das galerias pluviais.

Câmara Municipal de Avaré, Requerimento nº 141/2014, sobre programa de drenagem urbana e manejo das águas pluviais.

Câmara Municipal de Avaré, Indicação nº 316/2015 e reiteração em 2016, solicitando placas de "Área sujeita a alagamento" em pontos recorrentes de enchentes.

Jornal A Comarca, 31 de janeiro de 2022, com registros de alagamento no pontilhão da Rua Lineu Prestes, Rua Maranhão e outras regiões de Avaré.

Jornal A Bigorna, 1º de fevereiro de 2022, com levantamento da Defesa Civil sobre sete ruas centrais alagadas e outros pontos atingidos.

Prefeitura de Avaré, levantamento sobre os danos das fortes chuvas de fevereiro de 2022, com estimativa de 110 milímetros em aproximadamente 40 minutos e informações sobre cursos d'água e infraestrutura afetada. citeturn902129search16

UOL, 2 de fevereiro de 2022, registro da abertura de cratera na Rua Rio de Janeiro e informações da Defesa Civil sobre desabrigados e danos provocados pela chuva.

Prefeitura de Avaré, 10 de março de 2026, anúncio da obra de drenagem profunda na região central, com investimento superior a R$ 12 milhões e prazo de execução de até 12 meses.

Prefeitura de Avaré e atualizações sobre a execução da obra de drenagem em 2026, incluindo intervenções nas ruas Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Alagoas e Mato Grosso.

Defesa Civil do Estado de São Paulo, boletins meteorológicos para 9 e 10 de setembro de 2026, com previsão de chuva, trovoadas, rajadas de vento e risco de alagamentos e enxurradas.

Prefeitura de Avaré, 10 de setembro de 2026, alteração da programação da EMAPA em razão do alerta de temporais emitido pela Defesa Civil.