Uma investigação sobre o possível direcionamento de uma licitação estimada em mais de R$ 5,2 bilhões levou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), do Ministério Público de São Paulo, a deflagrar nesta quarta-feira, 9 de setembro, uma ampla operação em Bauru.
Batizada de Operação Cavalo de Troia, a ação atingiu diretamente integrantes da administração municipal e resultou em prisões temporárias, buscas em prédios públicos e outros endereços, afastamento de servidores, bloqueio de bens e na suspensão judicial da concorrência investigada.
O processo em questão envolve a concessão do sistema de gestão integrada dos resíduos sólidos urbanos de Bauru, com previsão de duração de 30 anos e valor global estimado em R$ 5.259.651.116,06, considerando valores de fevereiro de 2026.
Segundo o Ministério Público, trata-se da maior contratação pública já projetada na história do município.
O que motivou a operação
O principal foco da investigação é a suspeita de que a concorrência para a gestão dos resíduos tenha sido estruturada para beneficiar uma empresa determinada, reduzindo a competitividade do processo.
De acordo com o GAECO, os indícios levantados até agora apontam que o suposto direcionamento não teria ocorrido apenas na fase final do edital.
A investigação sustenta que a possível interferência teria começado ainda na concepção do modelo da concessão, passando pela elaboração dos estudos técnicos, definição das exigências para habilitação e pontuação das empresas, contratação de consultorias, produção de documentos administrativos e atuação diante de impugnações e possíveis concorrentes.
A finalidade investigada seria criar condições para assegurar vantagem à empresa interessada em vencer a disputa.
Esses fatos constituem a linha de investigação apresentada pelo Ministério Público. Não representam condenação, e a responsabilidade de cada investigado ainda deverá ser individualizada no decorrer das apurações.
Por que a operação se chama “Cavalo de Troia”
O próprio nome escolhido pelo GAECO está relacionado a uma das principais suspeitas investigadas.
Segundo o Ministério Público, uma secretária que ocupava posição estratégica na administração municipal manteria vínculos profissionais e econômicos com a empresa apontada como beneficiária do possível direcionamento.
A investigação apura se, a partir dessa posição dentro do poder público, interesses privados passaram a interferir na elaboração e condução do procedimento de contratação.
O GAECO também informou ter encontrado outra profissional na estrutura da secretaria que teria mantido vínculo anterior com a empresa investigada.
Sete prisões temporárias e 20 buscas
A Justiça autorizou sete mandados de prisão temporária e 20 mandados de busca e apreensão.
Também foram determinadas medidas de afastamento de servidores, bloqueio e sequestro de bens e valores, outras cautelares e a suspensão judicial da licitação e de contratos relacionados às investigações.
As diligências ocorreram em Bauru, Sorocaba e São Paulo e tiveram apoio da Polícia Militar e do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.
Entre os integrantes da administração municipal presos estão:
* Cilene Chabuh Bordezan, então secretária municipal de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal; * Vitor João de Freitas Costa, então secretário municipal de Negócios Jurídicos; * Sara Moura de Jesus, então secretária-adjunta de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal.
Também houve prisões de pessoas externas à administração municipal, entre elas integrantes ligados à Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru e Região e pessoas vinculadas ao setor privado investigado.
Roldão Neto, que exercia o cargo de coordenador de Políticas Públicas para o Meio Ambiente, foi levado para prestar esclarecimentos e posteriormente liberado.
As prisões são temporárias e de caráter cautelar, não representando declaração de culpa dos investigados.
Documentos foram apreendidos dentro da Prefeitura
Em Bauru, equipes estiveram no Centro Administrativo, incluindo a estrutura da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, na Secretaria de Negócios Jurídicos e na sede do governo municipal, na Praça das Cerejeiras.
A Justiça informou que as medidas foram autorizadas após análise dos elementos apresentados pelo Ministério Público.
O objetivo é preservar provas, identificar a atuação de cada investigado e esclarecer a origem e o destino de eventuais pagamentos relacionados aos fatos sob investigação.
GAECO aponta indícios de pagamentos e tentativa de interferência em órgãos de controle
A investigação vai além da preparação da licitação.
Segundo o Ministério Público, foram identificados indícios de pagamentos e vantagens, circulação reservada de documentos, interferência na elaboração de manifestações administrativas e estratégias destinadas a reduzir a competição.
O GAECO também investiga uma possível tentativa de neutralizar mecanismos de fiscalização.
Entre os fatos apresentados pelo órgão está o levantamento de informações pessoais sobre um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo que estaria relacionado à análise de procedimento no órgão.
Comunicações obtidas durante a investigação indicariam ainda planos de aproximação de pessoas ligadas ao grupo com instituições públicas para conseguir informações privilegiadas e, segundo a hipótese investigativa, possibilitar a oferta de vantagens indevidas.
O Ministério Público afirma ainda que as apurações alcançam possíveis articulações relacionadas a projetos de outros municípios, também envolvendo valores elevados. Até o momento, porém, a divulgação pública do caso não permite atribuir responsabilidade específica a outras administrações municipais sem o avanço das investigações.
Segunda operação investiga coleta seletiva
Paralelamente à Operação Cavalo de Troia, o GAECO cumpriu diligências da Operação Mobius.
Essa frente está relacionada à apuração de possíveis irregularidades em contrato de coleta seletiva de Bauru.
Embora as operações tenham sido realizadas simultaneamente, tratam-se de frentes investigativas relacionadas a procedimentos distintos dentro da política municipal de resíduos.
Prefeitura exonera quatro integrantes da administração
Horas depois da operação, a Prefeitura de Bauru divulgou nova nota de posicionamento e anunciou mudanças imediatas.
Foram exonerados:
Cilene Chabuh Bordezan, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal;
Vitor João de Freitas Costa, da Secretaria Municipal de Negócios Jurídicos;
Sara Moura de Jesus, do cargo de secretária-adjunta de Meio Ambiente e Bem-Estar Animal;
e Roldão Neto, da coordenação de Políticas Públicas para o Meio Ambiente.
A administração informou que novas nomeações serão anunciadas posteriormente para garantir a continuidade dos serviços municipais.
Prefeitura diz que não há apontamento contra a prefeita
Na nota divulgada nesta quarta-feira, a Prefeitura afirmou que respeita integralmente a atuação do Ministério Público e do GAECO e que continuará fornecendo documentos, informações e esclarecimentos solicitados durante a investigação.
A administração municipal também fez uma ressalva importante sobre a prefeita Suéllen Rosim.
Segundo o posicionamento oficial, considerando os elementos conhecidos e as informações tornadas públicas até o momento, não existe apontamento de participação ou envolvimento da chefe do Poder Executivo Municipal.
A Prefeitura informou ainda que todos os contratos, procedimentos e vínculos mencionados nas investigações serão submetidos a providências administrativas, incluindo a abertura de procedimentos de apuração quando cabíveis.
Licitação de R$ 5,259 bilhões está suspensa
Um dos efeitos imediatos mais relevantes da operação é a interrupção judicial do processo relacionado à concessão dos resíduos.
A contratação investigada prevê uma relação de 30 anos entre o município e a futura concessionária, alcançando um valor estimado superior a R$ 5,259 bilhões.
Em fevereiro deste ano, a própria Prefeitura havia realizado audiência pública sobre a concessão dentro do programa Bauru Sustentável, que previa mudanças em diversas etapas do manejo dos resíduos, como coleta, separação de recicláveis, destinação, Ecopontos, varrição, limpeza de bueiros e capinação.
Agora, a continuidade do processo depende dos desdobramentos judiciais e administrativos decorrentes da investigação.
Quais crimes estão sendo investigados
O GAECO informou que a Operação Cavalo de Troia busca aprofundar a apuração de possíveis crimes de fraude ao caráter competitivo de licitação, corrupção ativa e passiva, advocacia administrativa, falsidade ideológica e associação criminosa, sem prejuízo de outros delitos que eventualmente sejam identificados.
A investigação ainda está em andamento.
Os mandados e as exonerações ocorridas nesta quarta-feira não significam condenação. Caberá à investigação estabelecer a participação individual dos envolvidos, e aos investigados será assegurado o direito de defesa durante o processo.
Fontes:
Ministério Público do Estado de São Paulo / GAECO, informações oficiais da Operação Cavalo de Troia reproduzidas por veículos regionais.
Tribunal de Justiça de São Paulo, Vara Regional das Garantias da 3ª RAJ de Bauru, informações sobre as medidas judiciais autorizadas.
Prefeitura Municipal de Bauru, nota oficial de posicionamento de 9 de setembro de 2026, enviada à imprensa e divulgada pela administração.
Prefeitura de Bauru, audiência pública sobre a concessão do sistema de gestão integrada de resíduos sólidos, fevereiro de 2026.
JCNET/Sampi, atualização sobre prisões, exonerações e manifestação da Prefeitura.



