Os acontecimentos dos últimos dias em Avaré transformaram uma data internacional em um assunto muito próximo da população. Neste sábado, 12 de setembro, é celebrado o Dia Mundial dos Primeiros Socorros, instituído no segundo sábado de setembro para chamar a atenção para conhecimentos básicos que podem fazer diferença até a chegada do atendimento especializado. Em 2026, a data ocorre justamente neste sábado.
Em Avaré, a discussão acontece poucos dias depois de um temporal que deixou marcas tanto na área urbana quanto na zona rural.
O balanço divulgado após as chuvas da quinta-feira, 10, registrou alagamentos e inundações, quedas de árvores, desabamento de residência, destelhamentos e quatro pessoas desalojadas. Oito escolas também tiveram danos. Ruas da região central foram tomadas pela água e estradas rurais sofreram prejuízos, exigindo mobilização da Defesa Civil e de equipes municipais.
Diante desse cenário, uma pergunta simples ganha importância: se uma situação semelhante acontecer diante de você, saberia como agir sem colocar a própria vida em risco?
Antes de socorrer alguém, olhe ao redor
O primeiro princípio dos primeiros socorros é garantir que o local seja seguro.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência orienta que a pessoa avalie a cena antes de se aproximar da vítima. Água em movimento, fios energizados, estruturas comprometidas, árvores prestes a cair ou veículos em locais alagados podem transformar quem tenta ajudar em uma segunda vítima.
Por isso, em uma emergência, ajudar nem sempre significa correr imediatamente até a pessoa. Em muitas situações, a atitude mais importante é manter distância do perigo, acionar o socorro e seguir as orientações recebidas por telefone.
Enxurradas e alagamentos: não tente atravessar
Esta é uma das situações que mais se relaciona ao que Avaré enfrentou nos últimos dias.
Durante o temporal, vias ficaram alagadas e imagens mostraram a força da água em diferentes pontos da cidade. A Defesa Civil orienta que ruas ou trechos cobertos pela água não sejam atravessados.
Mesmo uma lâmina de água que parece pequena pode esconder buracos, bueiros abertos, objetos cortantes ou correnteza.
Se alguém estiver sendo levado pela água, a recomendação do Corpo de Bombeiros é evitar entrar na água sem treinamento. De um local seguro, pode-se lançar um objeto que flutue, como uma boia ou outro material capaz de manter a vítima na superfície, enquanto o Corpo de Bombeiros é acionado pelo 193.
Tentar realizar um salvamento entrando em uma enxurrada pode fazer com que duas pessoas passem a precisar de resgate.
Fio caído ou choque elétrico: não toque na vítima
Temporal, árvores derrubadas e danos em estruturas também aumentam o risco de acidentes envolvendo eletricidade.
Se houver um fio caído, a orientação é manter distância. Se alguém estiver sofrendo uma descarga elétrica, não toque diretamente na pessoa enquanto existir possibilidade de ela permanecer em contato com a corrente.
Quando for possível fazer isso com segurança dentro de uma residência, a energia deve ser desligada pela chave geral antes de qualquer aproximação. Em seguida, o atendimento de emergência deve ser acionado. Choques elétricos podem causar alterações cardíacas e lesões internas mesmo quando a pessoa aparentemente está bem.
Água e eletricidade tornam a situação ainda mais perigosa. Portanto, jamais entre em uma área alagada onde existam fios, postes ou equipamentos elétricos atingidos.
Queda de árvore, muro ou parte de uma construção: não movimente a vítima sem necessidade
Avaré também registrou quedas de árvores, destelhamentos e desabamento de residência durante o temporal.
Quando uma pessoa é atingida por árvore, telha, muro ou outro objeto pesado, pode existir lesão na coluna, cabeça ou órgãos internos, mesmo que externamente o ferimento pareça pequeno.
A orientação geral é não movimentar a vítima de um acidente ou trauma sem necessidade, principalmente quando não existe outro risco imediato no local. O Corpo de Bombeiros orienta que movimentações inadequadas podem agravar lesões internas ou na coluna.
O local deve ser mantido livre para a chegada da equipe de emergência.
Caso exista sangramento externo importante e seja possível prestar auxílio de forma segura, pode ser feita pressão direta sobre o ferimento com pano ou material limpo enquanto o socorro é aguardado.
Se a pessoa não responder e não estiver respirando normalmente
É uma das emergências em que cada minuto importa.
O Samu orienta que, diante de uma pessoa inconsciente e sem respiração normal, o serviço seja acionado imediatamente pelo 192. O atendente pode orientar quem está no local sobre as medidas necessárias até a chegada da equipe.
Quando houver treinamento ou orientação da central, podem ser iniciadas compressões no centro do peito, mantendo o atendimento até a chegada dos profissionais.
Mais importante do que tentar técnicas que a pessoa desconhece é ligar rapidamente para o serviço de emergência, descrever corretamente o que está acontecendo e seguir as orientações do profissional.
O risco continua depois que a água baixa
Os cuidados não terminam quando a chuva passa.
Depois de alagamentos, lama e água contaminada podem carregar microrganismos responsáveis por doenças. O Ministério da Saúde alerta para riscos como leptospirose, hepatite A, doenças diarreicas e tétano, além da presença de animais peçonhentos em locais com entulho e destroços.
Quem precisar entrar em áreas atingidas deve, sempre que possível, utilizar botas e luvas e evitar contato direto com a água e a lama.
Cortes e arranhões precisam ser limpos e protegidos. Em casos de ferimentos provocados por pregos, metais, madeira, vidro ou objetos encontrados entre os destroços, também é importante verificar a situação da vacinação contra o tétano e procurar orientação em uma unidade de saúde.
Alimentos, medicamentos ou produtos que tenham entrado em contato com a água da inundação não devem ser consumidos.
Atenção para sintomas depois do contato com água de enchente
Alguns problemas podem aparecer dias depois.
A Secretaria de Estado da Saúde orienta que pessoas que tiveram contato com água de enchente procurem atendimento médico caso apresentem sintomas como febre, forte dor muscular, principalmente nas panturrilhas, mal-estar, olhos avermelhados ou pele e olhos amarelados. Esses sinais podem estar relacionados à leptospirose e precisam de avaliação médica.
Ao procurar atendimento, é importante informar ao profissional de saúde que houve contato recente com água ou lama de enchente.
Saber pedir ajuda também é primeiros socorros
Em situações como as enfrentadas por Avaré nesta semana, três números devem ser conhecidos pela população: 192 para o Samu, em emergências médicas; 193 para o Corpo de Bombeiros, em resgates, acidentes e situações de risco; e 199 para a Defesa Civil, especialmente em ocorrências relacionadas a alagamentos, árvores, estruturas comprometidas e outros riscos provocados por eventos climáticos.
Ao telefonar, tente informar o endereço ou ponto de referência, o que aconteceu, quantas pessoas estão envolvidas e quais são as condições aparentes da vítima. Essas informações ajudam as equipes a preparar a resposta antes mesmo de chegar ao local.
Uma data que chega depois de dias difíceis
O Dia Mundial dos Primeiros Socorros costuma falar sobre situações que podem ocorrer em qualquer lugar.
Neste ano, para Avaré, o tema deixou de ser abstrato.
Em poucos dias, moradores viram ruas tomadas pela água, árvores caídas, imóveis danificados, famílias deixando suas casas e equipes trabalhando para recuperar áreas urbanas e rurais.
Conhecer procedimentos básicos não substitui Bombeiros, Samu, Defesa Civil ou profissionais de saúde. Mas pode impedir que uma situação piore enquanto o atendimento está a caminho.
E talvez essa seja a principal mensagem deste 12 de setembro: em uma emergência, saber o que não fazer pode ser tão importante quanto saber como ajudar.
Fontes: Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, Samu, Corpo de Bombeiros, Ministério da Saúde, Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Defesa Civil do Estado de São Paulo, Defesa Civil de Avaré, e levantamentos publicados pelo Em Pauta Avaré.



