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Avaré entre os primeiros municípios do país a reconhecer ADIs como professoras

Após 16 anos de luta, Auxiliares de Desenvolvimento Infantil conquistam o reconhecimento na carreira do magistério. Município integra um grupo ainda restrito de cidades que avançaram na aplicação da Lei Federal nº 15.326/2026.

Redação Em Pauta••Atualizada
Avaré entre os primeiros municípios do país a reconhecer ADIs como professoras

Avaré passou a integrar um grupo ainda restrito de municípios brasileiros que avançaram no reconhecimento das profissionais da educação infantil como integrantes da carreira do magistério. Dez meses após a sanção da Lei Federal nº 15.326/2026, a cidade concluiu uma etapa histórica: as Auxiliares de Desenvolvimento Infantil (ADIs) conquistaram o enquadramento como Professoras de Desenvolvimento Infantil (PDIs).

A legislação municipal, proposta pelo prefeito Roberto Araújo, foi aprovada por unanimidade pela Câmara em 19 de outubro e promulgada na noite de quarta-feira, 4 de novembro, durante uma cerimônia marcada por lágrimas, abraços e aplausos.

Para as profissionais, a conquista representa o reconhecimento de um trabalho desenvolvido diariamente nas creches municipais e o resultado de uma mobilização que atravessou diferentes administrações ao longo de 16 anos.

Avaré entre os municípios que avançaram no país

O reconhecimento coloca Avaré entre os municípios que deram andamento à aplicação da nova legislação federal.

O Observatório de Implementação, mantido pelo gabinete da deputada federal Professora Luciene Cavalcante, apresenta cerca de 60 municípios com a lei aplicada. Como o levantamento é atualizado progressivamente e não constitui um cadastro oficial de abrangência nacional, o número pode ser maior.

Considerando que o Brasil possui mais de 5,5 mil municípios, os registros disponíveis representam pouco mais de 1% das cidades brasileiras.

Entre os municípios identificados estão capitais como Fortaleza, Curitiba, Cuiabá e Campo Grande, além de cidades paulistas como Presidente Prudente e Jaguariúna. Votuporanga também aprovou legislação de adequação à norma federal.

Na região de Avaré, Arandu aprovou em setembro um projeto de enquadramento das profissionais, com previsão de implementação financeira a partir de 2027.

Embora as situações administrativas sejam diferentes, os avanços demonstram a dimensão nacional de uma reivindicação que, durante muitos anos, mobilizou trabalhadoras da primeira infância.

A lei federal e a participação de Luciene Cavalcante

A Lei Federal nº 15.326 foi sancionada sem vetos em 6 de janeiro de 2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A norma teve origem no Projeto de Lei nº 2.387/2023, apresentado pelos deputados federais Professora Luciene Cavalcante (PSOL-SP) e Reimont (PT-RJ).

A legislação determina o enquadramento na carreira do magistério dos profissionais da educação infantil que exercem funções docentes diretamente com as crianças, possuem formação exigida pela legislação e ingressaram mediante concurso público, independentemente da denominação original do cargo.

A aplicação depende de regulamentação pelo ente público responsável, observados os requisitos legais.

Professora e advogada, Luciene Cavalcante construiu parte de sua trajetória profissional na educação infantil. Sua atuação parlamentar está ligada ao movimento nacional Somos Todas Professoras, que defende o reconhecimento das atividades docentes exercidas nas creches.

A relação da parlamentar com a mobilização de Avaré começou antes mesmo da aprovação da legislação federal.

Em 2023, ela utilizou a tribuna da Câmara dos Deputados para manifestar solidariedade às ADIs avareenses, cobrando diálogo e reconhecimento profissional.

Na cerimônia de 4 de novembro, Luciene participou da celebração, homenageou as novas professoras e cumprimentou o prefeito Roberto Araújo e o secretário municipal de Educação, César Augusto de Oliveira, pelo avanço conquistado.

Uma luta iniciada há 16 anos

A trajetória das ADIs de Avaré remonta ao período entre 2009 e 2010, quando o município organizou a atuação dessas profissionais nas unidades de educação infantil.

O ingresso ocorreu por concurso público, com exigência de formação em magistério ou pedagogia e atribuições que envolviam cuidar e educar.

Apesar das responsabilidades pedagógicas, as servidoras permaneceram durante anos em um cargo não integrado à carreira docente.

Em 2023, a categoria reunia aproximadamente 200 profissionais distribuídas por 14 unidades da rede municipal.

Desde 2019, uma comissão buscava negociar o enquadramento com a administração municipal.

Em 2020, uma proposta de transformação do cargo foi rejeitada pelas próprias profissionais, que questionavam a segurança jurídica do texto e defendiam o reconhecimento dentro do Estatuto do Magistério.

As ADIs chegaram a contratar, com recursos próprios, o advogado Alexandre Mandl, ligado ao movimento Somos Todas Professoras, para contribuir com a elaboração de uma proposta juridicamente adequada.

A mobilização continuou com assembleias, reuniões, manifestações e cobranças ao poder público.

O principal obstáculo apresentado ao longo dos anos era o entendimento de que o enquadramento encontrava impedimentos constitucionais e legais.

A greve de 2023 e um dos momentos mais difíceis da mobilização

Em junho de 2023, durante a administração do então prefeito Jô Silvestre, a relação entre as ADIs e o Executivo municipal chegou a um dos momentos mais tensos.

Após o encerramento das negociações, a categoria decidiu iniciar uma greve em 12 de junho.

A Prefeitura acionou a Justiça, argumentando que a atividade era essencial e solicitando o reconhecimento da ilegalidade e abusividade da paralisação.

No dia 13 de junho, o Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu liminar determinando o retorno ao trabalho, com previsão de multa de R$ 10 mil por dia em caso de descumprimento.

Na ocasião, a administração municipal sustentava que o enquadramento das ADIs na carreira docente não possuía respaldo legal e poderia contrariar as regras constitucionais de ingresso no serviço público.

As profissionais, por sua vez, argumentavam que já exerciam atribuições de natureza pedagógica e reivindicavam direitos compatíveis com essas responsabilidades.

A Assembleia Legislativa de São Paulo também acompanhou a mobilização.

Em agosto daquele ano, uma moção apresentada pela deputada estadual Márcia Lia registrou denúncias relacionadas à condução das negociações e ao tratamento dispensado à categoria.

O documento relatou reclamações sobre retirada do revezamento durante o recesso escolar, mudanças de lotação, exclusão de pontos facultativos, retirada de horas extras, ameaças e pressão psicológica. Essas situações foram registradas como denúncias da mobilização, não constituindo, por si só, comprovação judicial de irregularidades.

A moção também relatou que, durante as tratativas, um representante jurídico do município teria afirmado que as crianças eram cuidadas, mas não educadas nas creches.

A declaração atribuída ao representante municipal tornou-se um dos símbolos do conflito entre o reconhecimento das atividades pedagógicas e a classificação funcional das profissionais.

Para a categoria, aquele período representou um desgaste que ultrapassou a discussão salarial. A reivindicação central era o reconhecimento de sua identidade profissional.

O compromisso assumido por Roberto Araújo

A discussão ganhou um novo capítulo nas eleições municipais de 2024.

Durante a campanha, Roberto Araújo assumiu o compromisso de buscar o enquadramento das Auxiliares de Desenvolvimento Infantil na carreira do magistério.

Eleito prefeito, passou a conduzir a questão dentro da administração municipal.

A sanção da Lei Federal nº 15.326, em janeiro de 2026, criou uma nova base legislativa para o reconhecimento, estabelecendo critérios nacionais para o enquadramento.

Entretanto, a aplicação no município ainda exigia adequações administrativas, estudos financeiros e análise jurídica.

O desafio era transformar o compromisso político em uma legislação municipal compatível com as exigências federais e com a organização da carreira dos servidores.

Da proposta à aprovação unânime

A elaboração do projeto municipal envolveu a Secretaria de Educação, a equipe jurídica da Prefeitura e diferentes setores administrativos.

O secretário municipal de Educação, César Augusto de Oliveira, participou da condução dos trabalhos necessários para viabilizar o enquadramento.

O resultado foi o Projeto de Lei Complementar nº 205/2026, apresentado pelo Executivo em 31 de agosto.

A proposta passou por análises jurídicas e recebeu substitutivos durante sua tramitação. Houve questionamentos sobre a constitucionalidade do enquadramento e manifestações favoráveis à continuidade do processo, demonstrando a complexidade jurídica da mudança.

O texto aprovado altera a Lei Complementar Municipal nº 216/2016 e estabelece a integração das profissionais abrangidas pela legislação à carreira do magistério, com a denominação de Professor de Desenvolvimento Infantil.

Também contempla disposições sobre vínculo funcional, tempo de serviço, remuneração e organização da jornada de trabalho.

Na noite de 19 de outubro, a Câmara Municipal aprovou o substitutivo por unanimidade dos vereadores presentes.

A votação foi acompanhada pelas profissionais, que lotaram o plenário para testemunhar uma conquista aguardada por mais de uma década e meia.

O reconhecimento que ultrapassa a mudança de nome

Na quarta-feira, 4 de novembro, a cerimônia de promulgação reuniu representantes do poder público, da categoria e pessoas que acompanharam diferentes momentos da mobilização.

Os aplausos e as lágrimas refletiram o significado pessoal e profissional da mudança.

O prefeito Roberto Araújo foi reconhecido pelo compromisso assumido com a categoria e pelo encaminhamento do projeto que permitiu a aprovação da medida.

A participação da deputada Luciene Cavalcante também representou a conexão entre a mobilização local e a construção da legislação nacional.

O enquadramento abre caminho para a aplicação dos direitos associados à carreira do magistério, conforme os requisitos legais, as regras municipais e os procedimentos necessários à implementação, incluindo questões relacionadas ao piso salarial, ao planejamento pedagógico e à aposentadoria nas condições previstas em lei.

A efetivação das alterações funcionais e financeiras deverá observar a legislação municipal publicada e seus prazos de aplicação.

Mas o significado da conquista não se resume à remuneração ou à nomenclatura de um cargo.

Durante 16 anos, essas profissionais receberam crianças diariamente, acompanharam seus primeiros aprendizados, participaram de seu desenvolvimento e construíram vínculos com famílias inteiras.

Nesse período, muitas crianças cresceram e deixaram as creches, enquanto a reivindicação pelo reconhecimento continuava.

A conquista de novembro de 2026 representa o resultado da persistência das profissionais, da mobilização coletiva, da construção de uma legislação federal e da decisão política e administrativa de implementá-la no município.

Para Avaré, o reconhecimento das ADIs como Professoras de Desenvolvimento Infantil marca um novo capítulo na história da educação municipal.

Para quem dedicou tantos anos ao cuidado, ao desenvolvimento e à educação das crianças, representa a realização de uma reivindicação construída ao longo de uma geração.

Depois de 16 anos de espera, o trabalho que já acontecia diariamente nas creches passa a receber o reconhecimento formal na carreira docente.

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